Pro bem ou pro mal, a televisão já é, indelevelmente, parte do cotidiano de todos nós. Aqui você encontrará textos críticos sobre programas de TV - novos e antigos -, trilhas sonoras, livros a seu respeito e um canal de bate-papo para discutir as qualidades e defeitos da máquina de fazer doido.
quinta-feira, 10 de novembro de 2016
DENISE FRAGA - TALENTO EM TODAS AS FRENTES
Quem foi pego de surpresa com a aparição de Denise Fraga nos primeiros capítulos da novela "A lei do amor" como a sofrida e doente mãe da protagonista Helô (então interpretada por Isabelle Drummond) pode até não saber, mas a atriz, mais conhecida por seu talento cômico - reforçado por anos à frente de quadros do "Fantástico", como "Retrato falado" e "Norma", ambos dirigidos por seu marido, Luiz Villaça - também não brinca em serviço quando o negócio é fazer chorar. Na minissérie "Queridos amigos" (2008), de Maria Adelaide Amaral, por exemplo, ela emocionou o público na pele de Beatriz, uma sobrevivente da ditadura militar, e no cinema e no teatro, explora com maestria sua tendência em equilibrar no mesmo personagem o que ele tem de humor e drama. Em seu filme mais recente, "De onde te vejo" (novamente sob o comando do marido), ela e Domingos Montagner dão um show, equilibrando pura comédia com cenas românticas e dramáticas na medida certa - uma característica que faz dela uma das grandes atrizes de sua geração.
Carioca de nascimento e paulista por afinidade, Denise Fraga nasceu em 15 de outubro de 1964 e em 1986 já conheceu o sucesso absoluto de público ao interpretar Olímpia, a empregada doméstica que tornou-se mania no teatro, graças à peça "Trair e coçar, é só começar", de Marcos Caruso e Jandira Martini. Seu brilhante desempenho fez do espetáculo um êxito inquestionável e lhe ocupou por longos seis anos. Nesse meio-tempo, ela também começou a cativar o público televisivo: primeiro como a hilariante Lalinha, irmã de Luiz Fernando (Paulo Castelli), na novela "Bambolê" (87/88), de Daniel Más; e depois como a funkeira Ritinha em "Barriga de aluguel" (90/91), de Glória Perez. Entre as duas novelas, exercitou seu lado comediante na segunda fase do saudoso "TV Pirata", e só retornou de vez à Globo em 2000 como Meg, em "Uga uga", de Carlos Lombardi. Nesse longo período, não se afastou da televisão - fez duas novelas no SBT, "Éramos seis" (94) e "Sangue do meu sangue" (95) - nem do teatro, além de ter começado também um caso de amor com o cinema. Seu trabalho no filme "Por trás do pano", de 1999, lhe rendeu prêmios nos festivais de cinema de Gramado e Havana, além da estatueta do Grande Prêmio Cinema Brasil. E esteve também no elenco do grande sucesso "O Auto da Compadecida" (2000), de Guel Arraes, que deu certo tanto na televisão quanto nas salas de cinema.
Com a carreira em nova e vitoriosa fase, Fraga embarcou de vez na sétima arte, com produções despretensiosas como "Cristina quer casar" (03) e "Como fazer um filme de amor", e tornou-se protagonista de quadros especiais do "Fantástico", que misturavam dramaturgia com reportagem. "Retrato falado" permaneceu no programa por cinco anos, sendo substituído ´em 2006 por "Copas de Mel", em 2007 por "Te quiero, América", e em 2009 por "Norma". Em 2008, encarou seu primeiro papel totalmente dramático na TV, na já citada "Queridos amigos" - e parecia estar reinventando-se diante do grande público (aquele que não frequenta teatro regularmente e tem certas restrições ao cinema nacional). Virou protagonista em série de TV por assinatura ("Três Teresas", da GNT), encarou outro personagem assombrado pela ditadura, no filme "Hoje", de Lúcia Murat, e viu sua série "A mulher do prefeito", que fez ao lado do veterano Tony Ramos, ser indicada ao Emmy internacional. No teatro, esteve recentemente em três peças aplaudidas pela crítica e pelo público: em "Sem pensar", falava sobre o afastamento das famílias em um mundo cada vez mais regido pelo virtual; em "Chorinho", ao lado de Cláudia Mello, vivia uma sem-teto que fazia amizade com uma aposentada de classe média; e em "Galileu Galilei", desafiou as normas ao interpretar um personagem masculino: o próprio cientista considerado herege pela Igreja católica. Um desafio até pequeno para quem já encarou até mesmo a icônica "Procurando Godot", de Samuel Beckett e não tem medo de enfrentar desafios.
Uma das atrizes mais carismáticas e talentosas do Brasil, Denise Fraga é um caso raro de intérprete que não precisou atrelar seu nome às novelas para firmar-se e conquistar o público. Transitando livremente entre os mais diversos veículos - sempre imprimindo sua personalidade a cada trabalho - tem seu nome reconhecido e admirado a cada aparição na telinha. Impossível não gostar!
terça-feira, 8 de novembro de 2016
"HAJA CORAÇÃO" - MUITOS ALTOS E POUCOS BAIXOS
A Globo tem um histórico complicado em relação aos remakes de suas novelas. Para cada caso de sucesso - como "Ti-ti-ti", que Maria Adelaide Amaral reescreveu em 2010 mantendo o frescor e lhe conferindo personalidade própria e "O rebu", que atualizou a obra de Jorge Andrade com inteligência e ritmo - existe uma lista de produções constrangedoras, como "Irmãos Coragem" (95), "Pecado capital" (98) e "Saramandaia" (13), que, por motivos os mais variados, não conseguiram manter a qualidade dos originais e decepcionaram os noveleiros de plantão. Portanto, quando foi anunciado que a emissora estava em vias de regravar "Sassaricando", escrita por Sílvio de Abreu em 87/88, muita gente colocou as barbas de molho. Primeiro porque a novela original não foi um sucesso tão retumbante assim - apesar de legar à teledramaturgia algumas personagens icônicas, como Tancinha e Fedora Abdala e jogar suas intérpretes Cláudia Raia e Cristina Pereira direto no saudoso "TV Pirata", ao lado do colega de elenco Diogo Vilela. Segundo porque o autor escalado para a missão, Daniel Ortiz, só tinha no currículo uma única novela como titular, a agradável "Alto astral" (14). E terceiro porque a última vez em que uma trama de Abreu tentou voltar às telinhas o resultado foi a desastrosa "Guerra dos sexos" (12), que simplesmente ignorou as mudanças ocorridas nas três décadas que separavam as duas versões e tornou-se um fiasco vergonhoso.
A notícia de que Ortiz não escreveria um remake normal, e sim faria uma espécie de reinvenção da trama não ajudou muito. Era uma decisão questionável, mas a estreia da novela, em maio, deixou claro que foi a mais apropriada. Ao manter algumas ideias centrais intactas e modificar outras, ao alterar a personalidade de alguns personagens e acrescentar outros (além de roubar a Shirley interpretada com graça por Sabrina Petraglia de outra novela de Sílvio de Abreu, a polêmica "Torre de Babel", de 1998), Daniel Ortiz conseguiu o que parecia impossível: melhorar a novela original, limando da sinopse uma trama policial desnecessária (que envolvia um marido misterioso para a protagonista Rebeca, vivida então por Tônia Carrero), enfatizando seu humor e espalhando elementos clássicos de folhetins (segredos, amores proibidos, vilões cruéis) por uma agradável temporada de seis meses que jamais esbarrou nas temidas barrigas e ainda proporcionou bons momentos a quem buscava um entretenimento leve e despretensioso em frente à TV. Apesar do último capítulo sofrível - apressado, com alguns buracos e um desfecho romântico que desagradou à muita gente - "Haja coração" termina sua trajetória com um crédito considerável e que mostra que seu autor, equilibrando com sabedoria tudo que se espera de uma telenovela e algumas novidades que conquistam um público menos paciente, tem um futuro promissor.
No final, entre mortos e feridos salvaram-se (quase) todos. Entre altos (muitos) e baixos (poucos), "Haja coração" divertiu e prendeu a atenção dos fãs de uma boa novela, que ofereceu tudo que algo do gênero não pode se furtar a oferecer: romance, drama, humor e uma pequena dose de suspense. Vamos agora destacar o que vai deixar saudades e o que já vai tarde.
EM ALTA:
MARIANA XIMENES: Linda e talentosa, Ximenes fez o que parecia impossivel: reviver um dos personagens mais marcantes da carreira de Cláudia Raia, a sexy feirante Tancinha. Sem exagerar nos trejeitos - o que poderia lhe empurrar para uma caricatura pouco apropriada para nossos tempos - a atriz já mostrou nos capítulos iniciais que não estava para brincadeira, e conquistou o público com seu carisma inegável. Com uma participação especial como ela mesma, a própria Cláudia Raia deu a bênção à nova versão de sua inesquecível personagem.
TATÁ WERNECK & GABRIEL GODOY: Outro desafio cumprido com louvor, graças à química impecável entre seus dois atores. Tatá saiu-se bem até mesmo em cenas dramáticas, e Gabriel - que trabalhou com o autor em "Alto astral", como Afeganistão - se revelou um dos nomes mais quentes da nova geração. Interpretados por Cristina Pereira (outra que também aprovou a substituta contracenando com ela) e Diogo Vilela em 1987, Fedora Abdala e Leonardo Raposo foram responsáveis por alguns dos momentos mais engraçados da trama e certamente serão recompensados com a memória do telespectador.
SABRINA PETRAGLIA & MARCOS PITOMBO: A maior trama romântica de "Haja coração" surpreendeu até a própria emissora, que viu o quadrilátero amoroso Tancinha-Beto-Tamara-Apolo ser eclipsado por uma história de amor pura e nos moldes de Cinderela, com direito até mesmo a armações malignas de inimigas cruéis e prepotentes. Importada de "Torre de Babel", Shirley conquistou o público com seu coração puro e altruísmo à toda prova - e seu príncipe encantado também não fez por menos, mostrando-se um cavalheiro até as últimas consequências.
REFERÊNCIAS A OUTRAS TRAMAS: Como bom fã de novelas, Daniel Ortiz recheou sua história com referências bastante divertidas a outras obras da Globo. Exemplos? Quando Safira (Cristina Pereira) anuncia sua iminente chegada ao Brasil, os closes em seus olhos e boca enquanto fala ao telefone remetem à vilã-mor da dramaturgia nacional, Odete Roitman (Beatriz Segall), de "Vale tudo". Mais um? O grupo de fãs de BBB que confundem Rebeca (interpretada por Malu Mader) com a própria atriz, para desespero de sua amiga Leonora (Ellen Roche, ótima), eliminada do reality show antes mesmo de entrar na casa. Lances assim, mais momentos de metalinguagem ("Esse bordão é de outro núcleo!", brada a autoritária Teodora (Grace Gianoukas) em determinado momento) surpreendiam o espectador e serviam como motivo de riso inteligente.
NOVOS ROSTOS: Toda novela tem sua cota de novos atores, como forma de renovar o elenco para futuras produções. "Haja coração" não fugiu à regra, apresentando novos rostos ao lado de veteranos consagrados, como Alexandre Borges, Malu Mader e Marisa Orth (sensacional em registro dramático). Destaque para o já citado Gabriel Godoy, o excelente Paulo Tiefenthaler (como o hipocondríaco Rodrigo), o pouco aproveitado Johnnas Oliva (como o rejeitado Enéas) e Renata Augusta, dona de ótimos diálogos como a doméstica Dinalda. São nomes que o público espera rever em breve.
EM BAIXA:
MALVINO SALVADOR & JAYME MATARAZZO: Dois dos piores atores já escalados para novelas globais, foram responsáveis por alguns dos momentos mais constrangedores da trama. Malvino construiu um Apolo absolutamente inexpressivo (se bem que no original o papel era de Alexandre Frota, ou seja...) e repleto dos trejeitos irritantes que vem mostrando em toda a sua carreira. Suas cenas eram quase intragáveis - em especial ao lado de uma Cléo Pires particularmente sem sal. E Matarazzo, logicamente, só está onde está por puro e simples nepotismo. Basta dar uma olhada em seu "desempenho" em "Cheias de charme", reprisada à tarde, para ver que ele é sempre o mesmo chato canastrão. E contracenar com a fraquinha Agatha Moreira não ajudou em nada.
O FINAL ABRUPTO: Tudo parecia estar em perfeito controle. Daniel Ortiz conseguiu dar conta de todas as subtramas que criou, resolvendo-as aos poucos, sem deixar tudo para o final, como normalmente acontece em outras produções. E então, nos últimos capítulos, algo desandou. Fatos importantes - como o julgamento e a cirurgia de Shirley e o desfecho do reencontro entre Francesca (Marisa Orth) e Guido (Werner Schunemann) - foram praticamente ignorados ou tratados sem a devida importância. Um pequeno tropeço, mas que não chega a apagar as qualidades dos meses anteriores - e mais um aviso à Globo para que se preocupe um pouco mais com os finais de suas novelas.
sexta-feira, 10 de julho de 2015
"SETE VIDAS": UMA NOVELA PARA DEIXAR SAUDADES
Aqueles telespectadores que costumam reclamar que as novelas de hoje em dia perderam a capacidade de prender o público, que substituíram a emoção pela polêmica e que não dão atenção à qualidade do texto e dos personagens, preferindo sacrificar a coerência interna da história em favor da audiência, deveriam ter deixado o discurso pronto de lado e prestado atenção em "Sete vidas", a recém encerrada atração das 18h, escrita por Lícia Manzo e sua equipe de colaboradores: sem tentar inventar a roda, Manzo - autora também da igualmente humanista "A vida da gente" (11) - criou uma trama inteligente, forte e dotada de uma sensibilidade única, que a destacou como uma das mais interessantes produções globais dos últimos anos. Mais curta do que a média das novelas da emissora - acabou com 107 capítulos, o que a poupou da temida "barriga" e deixou a sensação de que vai deixar muita saudade - "Sete vidas" manteve os ingredientes clássicos do gênero (histórias de amor, relações familiares, traumas do passado), mas lançou sobre eles um novo viés, mais moderno e adequado à realidade. Retratando os diversos tipos de núcleos familiares - e revestindo todos eles com um olhar carinhoso mas nunca condescendente - Manzo contou uma história (ou várias histórias, dependendo do ponto de vista) sobre aquilo que todo mundo vive no cotidiano: o amor, a amizade e sobre, parafraseando Caetano, a dor e a delícia de se ser o que é.
Seguindo um estilo consagrado por Manoel Carlos - que há muito tempo perdeu a mão e não consegue repetir o sucesso de um filão que ele mesmo criou - Lícia Manzo não apela para tramas folhetinescas que envolvem vilões vingativos, disputas aborrecidas por presidências de empresas ou assassinatos misteriosos para garantir sua audiência. Sua matéria-prima são os sentimentos, as dubiedades de cada personagem, seus dramas pessoais, seu sofrimento em relação a problemas banais como pagar as contas, conquistar o amor da pessoa amada, lidar com o abandono, buscar a realização profissional e fazer as pazes com o passado, entre outras encruzilhadas capazes de despertar a identificação de quem quer que seja. Seu trabalho não se destaca por ganchos engenhosos ao final de cada capítulo, e sim pela delicadeza com que costura as teias que ligam seus personagens - todos, sem exceção, construídos com consistência e verossimilhança. Os desfechos que cria para seus dilemas não apelam para barracos constantes - quando existem, são do tamanho apropriado - e sim para conversas longas e bem fundamentadas (felizmente amparadas por um elenco que, aleluia, é formado por atores e não por modelos escalados a despeito de sua incapacidade dramática). Para alguns, pode soar chato e tedioso. Para outros - a imensa maioria que louvou a novela a cada capítulo via redes sociais e clama com urgência a escalação da autora para o horário nobre - foi um oásis de inteligência e poesia.
A trama simples e genialmente bem moldada por Manzo - um homem incapaz de criar raízes emocionais devido a um trauma familiar do passado se torna o responsável involuntário pela união de sete filhos que gerou com uma série de doações a um banco de sêmen, no passado - encontrou na direção minimalista de Jayme Monjardim a parceria ideal. Sem o peso do horário das nove sobre os ombros, Monjardim pode dar à novela um ar menos ambicioso, que combinou com perfeição a trilha sonora de qualidade, a abertura despretensiosa, a fotografia ensolarada (ou, em alguns casos, gélida como um iceberg) e a forma de lidar com as subtramas - todas com um grau de interesse forte o bastante para sustentar-se independentemente da história central. Durante os quatro meses em que esteve no ar, "Sete vidas" discutiu, entre outros assuntos, a homossexualidade (sem alarde e de maneira respeitosa com o público e com os personagens), anorexia, a exploração filial, casamentos em crise, alienação parental, adoção, amor na terceira idade e doação de órgãos, sem que transformasse essas discussões em tribunais inquisitórios didáticos e/ou enfadonhos. Era comum ao telespectador ver-se, por exemplo, diante de uma longa conversa sobre as dificuldades de um relacionamento que não chegasse a nenhum resultado prático ou um diálogo a respeito de um livro ou de um filme (que não, não eram autoajuda plantada na trama por jabá ou uma comédia infeliz produzida pela Globo Filmes, mas sim obras de autores como Ian McEwan e Fernando Pessoa e maravilhas como o iraniano "A separação" e os filmes de Chaplin). Assim era o texto da autora: realista, mas poético. Inteligente e nunca maniqueísta.
E tal texto, o sonho de qualquer ator, encontrou em seu elenco os atores dos sonhos de sua autora. Com raras exceções (Jayme Matarazzo ainda bem fraco e Fernando Alves Pinto incapaz de transmitir qualquer tipo de emoção), os personagens de "Sete vidas" encontraram intérpretes à altura do desafio de refletir na telinha as emoções reais de gente como a gente. Deborah Bloch - cada vez melhor atriz e linda - segurou firme o papel de protagonista feminina, dando à sua Lígia a força e determinação necessárias para lidar com a gangorra emocional de seu par, o verdadeiro centro da narrativa, Miguel (Domingos Montagner em papel ingrato mas de grande coerência psicológica). Isabelle Drummond mostrou mais uma vez que é uma aposta certa da Globo na nova geração, fazendo de sua Júlia uma heroína romântica sem o ranço passivo das produções do passado. Regina Duarte fez uma volta triunfal à televisão como Ester, uma mãe corajosa e compreensiva que, após a morte da esposa, volta ao Brasil e precisa lidar com as personalidades conflitantes dos filhos gêmeos, o reservado Luís (Thiago Rodrigues em seu melhor trabalho até agora) e Laila (Maria Eduarda Carvalho, um dos maiores destaques da novela). Além disso, foi bom ver a chance dada a atores novos e talentosos como Ghilherme Lobo - do filme "Hoje eu quero voltar sozinho" - como o rebelde Bernardo, Letícia Colin, convincente como a hesitante modelo Elisa - que viu sua trama sobre anorexia ser boicotada pela emissora - e o argentino Michel Noher, que repetiu em cena a relação pai/filho com o ator Jean-Pierre Noher. Dentre tantos destaques, eles se mostraram preparados para novos trabalhos - e é sempre um prazer ver Jesuíta Barbosa em cena, mesmo que apenas em flashbacks.
Alguns críticos reclamaram do excesso de voz feminina na trama, em detrimento do desenvolvimento dos personagens masculinos. Bobagem. A opção de Lícia Manzo em contar sua história sob o ponto de vista das mulheres - de classes sociais, graus de instrução e anseios diversos - é válida e inteligente: o público feminino ainda é o mais fiel ao gênero e o tom da narrativa, leve e delicado, é muito mais adequado a ele. Além do mais, é uma falácia acusar a autora de não dar importância aos homens da trama, uma vez que tudo tem origem nos traumas de Miguel - um personagem riquíssimo em seu comportamento errático - e que cinco de seus filhos são homens - todos com uma cota bem saudável de problemas, com a possível exceção do pequeno e encantador Joaquim, único fruto de uma relação estável. Talvez esses detratores estejam tão acostumados com personagens mal-escritos que não conseguem enxergar uma pérola nem diante dos olhos. Sorte daqueles que, como os órfãos de "Sete vidas", ainda tem essa percepção.
Seguindo um estilo consagrado por Manoel Carlos - que há muito tempo perdeu a mão e não consegue repetir o sucesso de um filão que ele mesmo criou - Lícia Manzo não apela para tramas folhetinescas que envolvem vilões vingativos, disputas aborrecidas por presidências de empresas ou assassinatos misteriosos para garantir sua audiência. Sua matéria-prima são os sentimentos, as dubiedades de cada personagem, seus dramas pessoais, seu sofrimento em relação a problemas banais como pagar as contas, conquistar o amor da pessoa amada, lidar com o abandono, buscar a realização profissional e fazer as pazes com o passado, entre outras encruzilhadas capazes de despertar a identificação de quem quer que seja. Seu trabalho não se destaca por ganchos engenhosos ao final de cada capítulo, e sim pela delicadeza com que costura as teias que ligam seus personagens - todos, sem exceção, construídos com consistência e verossimilhança. Os desfechos que cria para seus dilemas não apelam para barracos constantes - quando existem, são do tamanho apropriado - e sim para conversas longas e bem fundamentadas (felizmente amparadas por um elenco que, aleluia, é formado por atores e não por modelos escalados a despeito de sua incapacidade dramática). Para alguns, pode soar chato e tedioso. Para outros - a imensa maioria que louvou a novela a cada capítulo via redes sociais e clama com urgência a escalação da autora para o horário nobre - foi um oásis de inteligência e poesia.
A trama simples e genialmente bem moldada por Manzo - um homem incapaz de criar raízes emocionais devido a um trauma familiar do passado se torna o responsável involuntário pela união de sete filhos que gerou com uma série de doações a um banco de sêmen, no passado - encontrou na direção minimalista de Jayme Monjardim a parceria ideal. Sem o peso do horário das nove sobre os ombros, Monjardim pode dar à novela um ar menos ambicioso, que combinou com perfeição a trilha sonora de qualidade, a abertura despretensiosa, a fotografia ensolarada (ou, em alguns casos, gélida como um iceberg) e a forma de lidar com as subtramas - todas com um grau de interesse forte o bastante para sustentar-se independentemente da história central. Durante os quatro meses em que esteve no ar, "Sete vidas" discutiu, entre outros assuntos, a homossexualidade (sem alarde e de maneira respeitosa com o público e com os personagens), anorexia, a exploração filial, casamentos em crise, alienação parental, adoção, amor na terceira idade e doação de órgãos, sem que transformasse essas discussões em tribunais inquisitórios didáticos e/ou enfadonhos. Era comum ao telespectador ver-se, por exemplo, diante de uma longa conversa sobre as dificuldades de um relacionamento que não chegasse a nenhum resultado prático ou um diálogo a respeito de um livro ou de um filme (que não, não eram autoajuda plantada na trama por jabá ou uma comédia infeliz produzida pela Globo Filmes, mas sim obras de autores como Ian McEwan e Fernando Pessoa e maravilhas como o iraniano "A separação" e os filmes de Chaplin). Assim era o texto da autora: realista, mas poético. Inteligente e nunca maniqueísta.
E tal texto, o sonho de qualquer ator, encontrou em seu elenco os atores dos sonhos de sua autora. Com raras exceções (Jayme Matarazzo ainda bem fraco e Fernando Alves Pinto incapaz de transmitir qualquer tipo de emoção), os personagens de "Sete vidas" encontraram intérpretes à altura do desafio de refletir na telinha as emoções reais de gente como a gente. Deborah Bloch - cada vez melhor atriz e linda - segurou firme o papel de protagonista feminina, dando à sua Lígia a força e determinação necessárias para lidar com a gangorra emocional de seu par, o verdadeiro centro da narrativa, Miguel (Domingos Montagner em papel ingrato mas de grande coerência psicológica). Isabelle Drummond mostrou mais uma vez que é uma aposta certa da Globo na nova geração, fazendo de sua Júlia uma heroína romântica sem o ranço passivo das produções do passado. Regina Duarte fez uma volta triunfal à televisão como Ester, uma mãe corajosa e compreensiva que, após a morte da esposa, volta ao Brasil e precisa lidar com as personalidades conflitantes dos filhos gêmeos, o reservado Luís (Thiago Rodrigues em seu melhor trabalho até agora) e Laila (Maria Eduarda Carvalho, um dos maiores destaques da novela). Além disso, foi bom ver a chance dada a atores novos e talentosos como Ghilherme Lobo - do filme "Hoje eu quero voltar sozinho" - como o rebelde Bernardo, Letícia Colin, convincente como a hesitante modelo Elisa - que viu sua trama sobre anorexia ser boicotada pela emissora - e o argentino Michel Noher, que repetiu em cena a relação pai/filho com o ator Jean-Pierre Noher. Dentre tantos destaques, eles se mostraram preparados para novos trabalhos - e é sempre um prazer ver Jesuíta Barbosa em cena, mesmo que apenas em flashbacks.
Alguns críticos reclamaram do excesso de voz feminina na trama, em detrimento do desenvolvimento dos personagens masculinos. Bobagem. A opção de Lícia Manzo em contar sua história sob o ponto de vista das mulheres - de classes sociais, graus de instrução e anseios diversos - é válida e inteligente: o público feminino ainda é o mais fiel ao gênero e o tom da narrativa, leve e delicado, é muito mais adequado a ele. Além do mais, é uma falácia acusar a autora de não dar importância aos homens da trama, uma vez que tudo tem origem nos traumas de Miguel - um personagem riquíssimo em seu comportamento errático - e que cinco de seus filhos são homens - todos com uma cota bem saudável de problemas, com a possível exceção do pequeno e encantador Joaquim, único fruto de uma relação estável. Talvez esses detratores estejam tão acostumados com personagens mal-escritos que não conseguem enxergar uma pérola nem diante dos olhos. Sorte daqueles que, como os órfãos de "Sete vidas", ainda tem essa percepção.
segunda-feira, 20 de abril de 2015
"BABILÔNIA" É A MELHOR NOVELA DA GLOBO EM ANOS
Tendo ultrapassado a barreira dos trinta primeiros capítulos, a novela "Babilônia" - que já estreou sob uma saraivada de pedras atiradas por políticos oportunistas, pastores evangélicos hipócritas e preconceituosos de todos os formatos (não por acaso todos retratados sob viés crítico no roteiro) - ainda não atingiu os índices de audiência esperados pela Rede Globo que, burramente, já providenciou grupos de discussão (também conhecidos como reuniões para desocupados cuja referência em qualidade dramatúrgica é "O direito de nascer") para alterar a trama prevista na sinopse dos autores. Isso quer dizer, em poucas palavras, que boa parte do que faz a novela ser tão boa está com os dias contados, e o que poderia ser um marco contra a intolerância e o retrocesso social periga tornar-se apenas mais uma novela das 21h. Para sorte de todos os telespectadores de bom gosto, porém, existe o consolo de que a pior novela de Gilberto Braga (o que não é o caso aqui) é mil vezes superior à melhor de Aguinaldo Silva - e é sintomático que a antecessora de "Babilônia", a tenebrosa "Império", tenha sido escrita por ele, que em bons tempos, colaborou com Braga na melhor novela de todos os tempos, a insuperável "Vale tudo", também co-escrita por Leonor Bassères.
Em seu primeiro mês no ar, "Babilônia" já foi acusada de tudo pelos detratores, desde tentar destruir a tradicional família brasileira - aquela mesma que nem se abalou quando um filho matou o pai pelas costas na novela anterior ou que achava normal o troca-troca de casais de "Amor à vida", atrocidade cometida por Walcyr Carrasco pouco antes - até de ter uma mocinha chata - como se a Morena de "Salve Jorge" e a Paloma da novela de Carrasco fossem exemplos de protagonistas empolgantes (e vale lembrar que Nanda Costa e Paolla Oliveira, suas intérpretes, não chegam aos pés do talento de Camila Pitanga, a heroína da atual produção global. O que esses críticos talvez não percebam - ou não queiram perceber, já que muitas vezes a ideologia política os cega às qualidades artísticas dos produtos globais - é que, em termos dramatúrgicos, a trama escrita por Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga é a mais inteligente a surgir nas telinhas desde o final de "Avenida Brasil", de João Emmanuel Carneiro - que acabou no primeiro semestre de 2013, ou seja, há longínquos dois anos. Bem escrita, bem dirigida, visualmente atraente e com um elenco acima de qualquer crítica (salvo exceções), "Babilônia" é um novelão que merece conquistar sua audiência - mesmo que, para isso, tenha que, infelizmente, alterar algumas de suas histórias originais.
O que provavelmente mais incomoda aos telespectadores que abandonaram a Globo no horário nobre - há que se levar em consideração também a concorrência da Internet, transmissões em streaming, canais a cabo, etc - é o fato de que suas duas protagonistas - a Beatriz de Glória Pires e a Inês de Adriana Esteves (ambas excelentes) - não são exemplos a serem seguidos. Beatriz é uma devoradora de homens, trai o marido sem pena nem dó, desvia dinheiro de sua empreiteira e só agora parece estar no caminho de mudar sua rotina de manda-chuva, ao se envolver com Diogo (Thiago Martins), o jovem atleta patrocinado pela empresa da família. E Inês recentemente colocou as cartas na mesa para o telespectador, anunciando uma vingança contra a ex-melhor amiga de adolescência - uma vingança, aliás, semelhante àquela que Laura (Cláudia Abreu) tramou contra Maria Clara Diniz (Malu Mader) em "Celebridade", que Braga escreveu em 2003. A batalha entre as duas é a base da novela - olho por olho, dente por dente - e quem foge desses desvios de caráter é a terceira personagem central, Regina (Camila Pitanga), que batalha para criar a filha pequena e sobreviver de forma honesta. É surpreendente e paradoxal que o público rejeite Inês e Beatriz porque elas são "do mal" e pouco se importe com Regina porque "ela é chata". Povinho difícil de agradar!
E nem vou entrar no mérito das polêmicas levantadas nesse primeiro mês - aliás, primeiro capítulo, que mostrou, para o choque das senhoras de Santana, um beijo na boca entre duas mulheres. Se tivesse sido um beijo entre dois símbolos sexuais de peitos inchados de silicone, provavelmente a reação seria entusiástica. Mas não foi. Quem se beijou foram duas mulheres de 80 anos, que vivem uma relação estável há 35 e se amam - e são vividas por dois monumentos das artes cênicas nacionais, Fernanda Montenegro e Nathalia Thimberg. O resultado? Gritaria geral por parte dos conservadores - inclusive políticos cujos nomes estão envolvidos em escândalos de corrupção. E políticos corruptos também não faltam na novela, representados pelo demagogo Aderbal Pimenta (Marcos Palmeira em sua melhor atuação em muito tempo), que nas horas vagas invoca o nome de Deus para justificar seus preconceitos - assim como sua mãe, vivida por uma excelente Arlete Salles, que não hesita em disparar barbaridades contra gays, ateus e quem mais cruzar seu caminho sem compactuar com suas ideias retrógradas. Não é à toa a baixa audiência! Quem é que gosta de se ver ridicularizado em horário nobre?
"Babilônia", reitero, é uma grande novela. Tem personagens bem delineados, tramas bem amarradas, ideias muito inteligentes, uma trilha sonora que é um respiro frente aos funks, sertanejos e pagodes enfiados garganta adentro pelos programas de auditório e um elenco fascinante recitando diálogos que soam como música. É um presente ver, diariamente, nomes como Fernanda Montenegro, Nathalia Thimberg, Glória Pires, Adriana Esteves, Cássio Gabus Mendes, Arlete Salles, Bruno Gagliasso e Débora Duarte - entre vários outros atores e atrizes de experiências variadas. É de graça. Massageia o cérebro - dentro dos limites do que pode fazer uma simples telenovela - e entretém. Como assim tem gente que ainda preferia estar assistindo àquela bobagem que era transmitida antes???
Em seu primeiro mês no ar, "Babilônia" já foi acusada de tudo pelos detratores, desde tentar destruir a tradicional família brasileira - aquela mesma que nem se abalou quando um filho matou o pai pelas costas na novela anterior ou que achava normal o troca-troca de casais de "Amor à vida", atrocidade cometida por Walcyr Carrasco pouco antes - até de ter uma mocinha chata - como se a Morena de "Salve Jorge" e a Paloma da novela de Carrasco fossem exemplos de protagonistas empolgantes (e vale lembrar que Nanda Costa e Paolla Oliveira, suas intérpretes, não chegam aos pés do talento de Camila Pitanga, a heroína da atual produção global. O que esses críticos talvez não percebam - ou não queiram perceber, já que muitas vezes a ideologia política os cega às qualidades artísticas dos produtos globais - é que, em termos dramatúrgicos, a trama escrita por Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga é a mais inteligente a surgir nas telinhas desde o final de "Avenida Brasil", de João Emmanuel Carneiro - que acabou no primeiro semestre de 2013, ou seja, há longínquos dois anos. Bem escrita, bem dirigida, visualmente atraente e com um elenco acima de qualquer crítica (salvo exceções), "Babilônia" é um novelão que merece conquistar sua audiência - mesmo que, para isso, tenha que, infelizmente, alterar algumas de suas histórias originais.
O que provavelmente mais incomoda aos telespectadores que abandonaram a Globo no horário nobre - há que se levar em consideração também a concorrência da Internet, transmissões em streaming, canais a cabo, etc - é o fato de que suas duas protagonistas - a Beatriz de Glória Pires e a Inês de Adriana Esteves (ambas excelentes) - não são exemplos a serem seguidos. Beatriz é uma devoradora de homens, trai o marido sem pena nem dó, desvia dinheiro de sua empreiteira e só agora parece estar no caminho de mudar sua rotina de manda-chuva, ao se envolver com Diogo (Thiago Martins), o jovem atleta patrocinado pela empresa da família. E Inês recentemente colocou as cartas na mesa para o telespectador, anunciando uma vingança contra a ex-melhor amiga de adolescência - uma vingança, aliás, semelhante àquela que Laura (Cláudia Abreu) tramou contra Maria Clara Diniz (Malu Mader) em "Celebridade", que Braga escreveu em 2003. A batalha entre as duas é a base da novela - olho por olho, dente por dente - e quem foge desses desvios de caráter é a terceira personagem central, Regina (Camila Pitanga), que batalha para criar a filha pequena e sobreviver de forma honesta. É surpreendente e paradoxal que o público rejeite Inês e Beatriz porque elas são "do mal" e pouco se importe com Regina porque "ela é chata". Povinho difícil de agradar!
E nem vou entrar no mérito das polêmicas levantadas nesse primeiro mês - aliás, primeiro capítulo, que mostrou, para o choque das senhoras de Santana, um beijo na boca entre duas mulheres. Se tivesse sido um beijo entre dois símbolos sexuais de peitos inchados de silicone, provavelmente a reação seria entusiástica. Mas não foi. Quem se beijou foram duas mulheres de 80 anos, que vivem uma relação estável há 35 e se amam - e são vividas por dois monumentos das artes cênicas nacionais, Fernanda Montenegro e Nathalia Thimberg. O resultado? Gritaria geral por parte dos conservadores - inclusive políticos cujos nomes estão envolvidos em escândalos de corrupção. E políticos corruptos também não faltam na novela, representados pelo demagogo Aderbal Pimenta (Marcos Palmeira em sua melhor atuação em muito tempo), que nas horas vagas invoca o nome de Deus para justificar seus preconceitos - assim como sua mãe, vivida por uma excelente Arlete Salles, que não hesita em disparar barbaridades contra gays, ateus e quem mais cruzar seu caminho sem compactuar com suas ideias retrógradas. Não é à toa a baixa audiência! Quem é que gosta de se ver ridicularizado em horário nobre?
"Babilônia", reitero, é uma grande novela. Tem personagens bem delineados, tramas bem amarradas, ideias muito inteligentes, uma trilha sonora que é um respiro frente aos funks, sertanejos e pagodes enfiados garganta adentro pelos programas de auditório e um elenco fascinante recitando diálogos que soam como música. É um presente ver, diariamente, nomes como Fernanda Montenegro, Nathalia Thimberg, Glória Pires, Adriana Esteves, Cássio Gabus Mendes, Arlete Salles, Bruno Gagliasso e Débora Duarte - entre vários outros atores e atrizes de experiências variadas. É de graça. Massageia o cérebro - dentro dos limites do que pode fazer uma simples telenovela - e entretém. Como assim tem gente que ainda preferia estar assistindo àquela bobagem que era transmitida antes???
sexta-feira, 13 de março de 2015
TRILHAS SONORAS INESQUECÍVEIS - O OUTRO
A novela, como todas as escritas por Aguinaldo Silva, com exceção de "Vale tudo" (88) - co-escrita por Gilberto Braga e Leonor Bassères - e "Tieta" (89), era um lixo. Chata, sem personalidade, com personagens rasos e uma trama central pra lá de batida contada com preguiça e sem criatividade, "O outro" ocupou o horário nobre da Globo entre março e outubro de 1987 sem cativar o espectador a ponto de tornar-se referência ou despertar saudades - e isso que foi substituída pela tenebrosa "Mandala", escrita por Dias Gomes e que tentou atualizar o mito de Édipo e Jocasta para o século XX. Marcando a volta de Francisco Cuoco às novelas depois de um afastamento de três anos - sua última atuação na TV havia sido em "Eu prometo", encerrada em 1984 e que foi o derradeiro trabalho da mestra Janete Clair - "O outro" usava o velho artifício da troca de sósias para misturar as vidas de um empresário milionário e o dono de um humilde ferro-velho depois de uma explosão em um posto de gasolina. Sem oferecer maiores novidades à plateia, Aguinaldo escreveu uma novela repleta de problemas de bastidores - a regravação de todo o trabalho do diretor Marcos Paulo, afastado por conflitos com outros profissionais; a dificuldade de escalar uma das atrizes principais (Glória Menezes e Vera Fischer recusaram o papel que acabou ficando com Natália do Valle); as críticas pela semelhança da trama principal com outras novelas mais antigas - que tampouco legou à história do gênero alguma personagem marcante: o mais próximo que chegou disso foi criar Glorinha da Abolição, uma hippie tardia que vendia artesanato na praia de Copacabana e que, na atuação de Malu Mader, tornou-se a queridinha da audiência.
Porém, apesar de seus inúmeros defeitos, "O outro" tinha uma qualidade quase redentora: sua trilha sonora. Tanto a versão nacional, cuja capa estampava a então estreante Luma de Oliveira, quanto a internacional, com Malu Mader vestida de Glorinha da Abolição, apresentavam músicas que marcaram o final da década de 80 e que ilustravam com perfeição as cenas criadas pelo autor. O LP nacional já começava com um mestre: Gilberto Gil cantava "O mar de Copacabana", tema de Índia do Brasil (Yoná Magalhães, em papel escrito para Betty Faria), a gerente do ferro-velho de Denizard de Mattos (Cuoco) que não escondia a paixão pelo chefe. Maria Bethânia vinha logo em seguida com "Quero ficar com você", que embalava as cenas românticas de Laura (Natália do Valle), esposa do empresário Paulo Della Santa (novamente Cuoco) que estava com o casamento em crise na ocasião do acidente que quase matou seu marido. "O nosso amor a gente inventa", na voz de Cazuza, era a música-tema de Cíntia (Beth Goulart), filha mais velha de Paulo, e "Doublé de corpo", da banda Heróis da Resistência, ilustrava o dia-a-dia da modelo Dedé (Luma de Oliveira fazendo papel de filha de sua irmã mais velha, Ísis). "Esquece e vem", de Nico Rezende, era outra trilha sonora de Laura, dessa vez em sua relação com Denizard, que asssumia, desmemoriado, o lugar de Paulo na família do sósia. O lado A do disco acabava com Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros com a clássica "Kátia Flávia", cuja letra em ritmo acelerado servia de ponte entre as cenas, junto a imagens da praia que era cenário da trama central.
O lado B também não começava mal, com a bela "Amanhã é 23", interpretada por Kid Abelha e os Abóboras Selvagens e que identificava os dramas de Glorinha da Abolição. "Fogo de saudade", na voz de Beth Carvalho, era o tema de Agostinho (José Lewgoy), o velho pai de Paulo que encontrava na jovem hippie uma amizade inesperada. "O mundo é um moinho", clássico de Cartola, aparecia em cena através de Ney Matogrosso, e servia como tema para o mau-caráter João Silvério (Miguel Falabella), irmão de Laura que se envolvia com Cíntia mesmo contra a vontade do pai da jovem. "Quem me olha só", com o grupo Barão Vermelho, era a música do romance entre tapas e beijos do casal Genésio (José de Abreu forçando um caricato sotaque gaúcho) e Edwiges (Cláudia Raia em seu papel de menor destaque na televisão e imediatamente anterior à Tancinha de "Sassaricando", que a consagraria como comediante). Sandra Sá (antes de acrescentar o "de" em seu nome) comparecia com a linda "Retratos e canções", que tornou-se sucesso ao comentar o romance entre Zezinha (Cláudia Abreu em sua segunda novela e primeira do horário nobre) e Pedro Ernesto (Marcos Frota), filhos dos dois sósias que o destino (ou o roteiro de Aguinaldo) uniu em um romance problemático. A trilha nacional encerra com o tema de abertura da novela, "Flores em você", da banda Ira.
O disco internacional também tinha pérolas imperdíveis da década de 80. Começava com "Coming around again", tema do filme "A dificil arte de amar" que, na doce voz de Carly Simon, também servia para as cenas de Índia do Brasil. "Don't dream it's over", com Crowded House, era a música de Denizard em suas aventuras românticas e "The miracle of love", da banda Eurithmics (da diva Annie Lennox) embalava o romance entre Cíntia e João Silvério. Menos conhecidas, as canções "At the back of my heart" (M.C.R.) e "You're the voice" (John Farham) serviam para costurar as cenas da novela, mas a linda "Words get in the way", com Gloria Estephan & Miami Sound Machine servia para os dramas amorosos de Laura e "This love", do grupo Bad Company, para acompanhar Dedé e seu envolvimento com Benjamin (Flávio Galvão), um comportado pai de família que enlouquece com sua beleza jovem.
O lado B do disco abre com outro clássico: "Don't get me wrong", com The Pretenders, que servia para acompanhar Glorinha da Abolição e seus problemas pessoais e românticos. Tina Turner entrava em cena com "Two people" - tema de Zezinha e Pedro Ernesto. "Never gonna leave you" (Subject), e "Stay the night" (Benjamin Orr) não tinham personagem fixo, assim como a delicada "Foolish pride" (Sasha), porém, as duas últimas canções do disco embalaram muitas festinhas de garagem. "I'll be over you" (Toto) era a música do casal Genésio/Edwiges e "Thousand miles from home" (Jim Porto) enfatizava o tom misterioso de Gabriel (Herson Capri em papel criado para Marcos Paulo como forma de desagravo por sua saída da direção da novela e que foi recusado por ele).
Mesmo que seja uma novela que não deixou marcas ou lembranças positivas no telespectador, "O outro" valeu por sua trilha sonora, que reuniu grandes canções clássicas de seu tempo em um mesmo pacote. E de quebra tinha Malu Mader - no auge do sucesso - ilustrando uma das capas mais clássicas da história da Som Livre.
TRILHA NACIONAL
1. MAR DE COPACABANA - Gilberto Gil
2. QUERO FICAR COM VOCÊ - Maria Bethânia
3. O NOSSO AMOR A GENTE INVENTA - Cazuza
4. DOUBLÉ DE CORPO - Heróis da Resistência
5. ESQUECE E VEM - Nico Rezende
6. KÁTIA FLÁVIA - Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros
7. AMANHÃ É 23 - Kid Abelha e os Abóboras Selvagens
8. FOGO DE SAUDADE - Beth Carvalho
9. O MUNDO É UM MOINHO - Ney Matogrosso
10. QUEM ME OLHA SÓ - Barão Vermelho
11. RETRATOS E CANÇÕES - Sandra Sá
12. FLORES EM VOCÊ - Ira
TRILHA INTERNACIONAL
1. COMING AROUND AGAIN - Carly Simon
2. DON'T DREAM IT'S OVER - Crowded House
3. THE MIRACLE OF LOVE - Eurithmics
4. AT THE BACK OF MY HEART - M.C.R.
5. YOU'RE THE VOICE - John Farham
6. WORDS GET IN THE WAY - Gloria Estefan & The Miami Sound Machine
7. THIS LOVE - Bad Company
8. DON'T GET ME WRONG - The Pretenders
9. TWO PEOPLE - Tina Turner
10. NEVER GONNA LEAVE YOU - Subject
11. STAY THE NIGHT - Benjamin Orr
12. FOOLISH PRIDE - Sasha
13. I'LL BE OVER YOU - Toto
14. THOUSAND MILES FROM HOME - Jim Porto
Porém, apesar de seus inúmeros defeitos, "O outro" tinha uma qualidade quase redentora: sua trilha sonora. Tanto a versão nacional, cuja capa estampava a então estreante Luma de Oliveira, quanto a internacional, com Malu Mader vestida de Glorinha da Abolição, apresentavam músicas que marcaram o final da década de 80 e que ilustravam com perfeição as cenas criadas pelo autor. O LP nacional já começava com um mestre: Gilberto Gil cantava "O mar de Copacabana", tema de Índia do Brasil (Yoná Magalhães, em papel escrito para Betty Faria), a gerente do ferro-velho de Denizard de Mattos (Cuoco) que não escondia a paixão pelo chefe. Maria Bethânia vinha logo em seguida com "Quero ficar com você", que embalava as cenas românticas de Laura (Natália do Valle), esposa do empresário Paulo Della Santa (novamente Cuoco) que estava com o casamento em crise na ocasião do acidente que quase matou seu marido. "O nosso amor a gente inventa", na voz de Cazuza, era a música-tema de Cíntia (Beth Goulart), filha mais velha de Paulo, e "Doublé de corpo", da banda Heróis da Resistência, ilustrava o dia-a-dia da modelo Dedé (Luma de Oliveira fazendo papel de filha de sua irmã mais velha, Ísis). "Esquece e vem", de Nico Rezende, era outra trilha sonora de Laura, dessa vez em sua relação com Denizard, que asssumia, desmemoriado, o lugar de Paulo na família do sósia. O lado A do disco acabava com Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros com a clássica "Kátia Flávia", cuja letra em ritmo acelerado servia de ponte entre as cenas, junto a imagens da praia que era cenário da trama central.
O lado B também não começava mal, com a bela "Amanhã é 23", interpretada por Kid Abelha e os Abóboras Selvagens e que identificava os dramas de Glorinha da Abolição. "Fogo de saudade", na voz de Beth Carvalho, era o tema de Agostinho (José Lewgoy), o velho pai de Paulo que encontrava na jovem hippie uma amizade inesperada. "O mundo é um moinho", clássico de Cartola, aparecia em cena através de Ney Matogrosso, e servia como tema para o mau-caráter João Silvério (Miguel Falabella), irmão de Laura que se envolvia com Cíntia mesmo contra a vontade do pai da jovem. "Quem me olha só", com o grupo Barão Vermelho, era a música do romance entre tapas e beijos do casal Genésio (José de Abreu forçando um caricato sotaque gaúcho) e Edwiges (Cláudia Raia em seu papel de menor destaque na televisão e imediatamente anterior à Tancinha de "Sassaricando", que a consagraria como comediante). Sandra Sá (antes de acrescentar o "de" em seu nome) comparecia com a linda "Retratos e canções", que tornou-se sucesso ao comentar o romance entre Zezinha (Cláudia Abreu em sua segunda novela e primeira do horário nobre) e Pedro Ernesto (Marcos Frota), filhos dos dois sósias que o destino (ou o roteiro de Aguinaldo) uniu em um romance problemático. A trilha nacional encerra com o tema de abertura da novela, "Flores em você", da banda Ira.
O disco internacional também tinha pérolas imperdíveis da década de 80. Começava com "Coming around again", tema do filme "A dificil arte de amar" que, na doce voz de Carly Simon, também servia para as cenas de Índia do Brasil. "Don't dream it's over", com Crowded House, era a música de Denizard em suas aventuras românticas e "The miracle of love", da banda Eurithmics (da diva Annie Lennox) embalava o romance entre Cíntia e João Silvério. Menos conhecidas, as canções "At the back of my heart" (M.C.R.) e "You're the voice" (John Farham) serviam para costurar as cenas da novela, mas a linda "Words get in the way", com Gloria Estephan & Miami Sound Machine servia para os dramas amorosos de Laura e "This love", do grupo Bad Company, para acompanhar Dedé e seu envolvimento com Benjamin (Flávio Galvão), um comportado pai de família que enlouquece com sua beleza jovem.
O lado B do disco abre com outro clássico: "Don't get me wrong", com The Pretenders, que servia para acompanhar Glorinha da Abolição e seus problemas pessoais e românticos. Tina Turner entrava em cena com "Two people" - tema de Zezinha e Pedro Ernesto. "Never gonna leave you" (Subject), e "Stay the night" (Benjamin Orr) não tinham personagem fixo, assim como a delicada "Foolish pride" (Sasha), porém, as duas últimas canções do disco embalaram muitas festinhas de garagem. "I'll be over you" (Toto) era a música do casal Genésio/Edwiges e "Thousand miles from home" (Jim Porto) enfatizava o tom misterioso de Gabriel (Herson Capri em papel criado para Marcos Paulo como forma de desagravo por sua saída da direção da novela e que foi recusado por ele).
Mesmo que seja uma novela que não deixou marcas ou lembranças positivas no telespectador, "O outro" valeu por sua trilha sonora, que reuniu grandes canções clássicas de seu tempo em um mesmo pacote. E de quebra tinha Malu Mader - no auge do sucesso - ilustrando uma das capas mais clássicas da história da Som Livre.
TRILHA NACIONAL
1. MAR DE COPACABANA - Gilberto Gil
2. QUERO FICAR COM VOCÊ - Maria Bethânia
3. O NOSSO AMOR A GENTE INVENTA - Cazuza
4. DOUBLÉ DE CORPO - Heróis da Resistência
5. ESQUECE E VEM - Nico Rezende
6. KÁTIA FLÁVIA - Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros
7. AMANHÃ É 23 - Kid Abelha e os Abóboras Selvagens
8. FOGO DE SAUDADE - Beth Carvalho
9. O MUNDO É UM MOINHO - Ney Matogrosso
10. QUEM ME OLHA SÓ - Barão Vermelho
11. RETRATOS E CANÇÕES - Sandra Sá
12. FLORES EM VOCÊ - Ira
TRILHA INTERNACIONAL
1. COMING AROUND AGAIN - Carly Simon
2. DON'T DREAM IT'S OVER - Crowded House
3. THE MIRACLE OF LOVE - Eurithmics
4. AT THE BACK OF MY HEART - M.C.R.
5. YOU'RE THE VOICE - John Farham
6. WORDS GET IN THE WAY - Gloria Estefan & The Miami Sound Machine
7. THIS LOVE - Bad Company
8. DON'T GET ME WRONG - The Pretenders
9. TWO PEOPLE - Tina Turner
10. NEVER GONNA LEAVE YOU - Subject
11. STAY THE NIGHT - Benjamin Orr
12. FOOLISH PRIDE - Sasha
13. I'LL BE OVER YOU - Toto
14. THOUSAND MILES FROM HOME - Jim Porto
domingo, 25 de janeiro de 2015
"IMPÉRIO": DE PROMESSA À DECEPÇÃO
Em julho o público noveleiro entusiasmou-se: depois de um longo inverno em que teve que aturar as viagens megalomaníacas de "Salve Jorge", o texto paupérrimo e as cenas de um programa ruim de humor de "Amor à vida" e a pasmaceira fora da realidade de "Em família", parecia que enfim uma novela de verdade estava prestes a começar. Os primeiros capítulos de "Império" prometiam: um ritmo ágil, bom texto, atores a serviço de bons personagens e uma passagem de tempo que não tratou o espectador como burro encheram o peito da audiência de esperança. Então, apesar de algumas tramas paralelas que pareciam interessantes, a história começou a patinar. Patinou, patinou e chegou a seu sexto mês de exibição cansada. Agora que seu autor Aguinaldo Silva resolveu realmente dedicar seu tempo a contar a história do Comendador José Alfredo - a espinha dorsal da novela, afinal de contas - talvez seja tarde demais para recuperar a paciência do público. Repleto de personagens maniqueístas, preconceito e histórias requentadas das novelas anteriores do mesmo autor, "Império" também não mostrou a que veio. É mais uma novela que é muito melhor na mente egocêntrica de seu criador do que na telinha da TV.
A novela, como afirmado anteriormente, começou bem. Aguinaldo Silva, apesar de tudo, é um autor experiente e sabe como expor suas tramas e construir seus personagens de modo a interligá-los de maneira inteligente, além de ser um exímio construtor de diálogos - ninguém que é co-autor de "Roque Santeiro" e "Vale tudo" e autor principal de "Tieta" pode ser acusado de não saber escrever um bom texto teledramatúrgico. O problema é que, com o passar do tempo, os (muitos) defeitos da novela acabaram por chamar mais a atenção do que suas (poucas mas sólidas) qualidades. Então o show de Alexandre Nero no papel principal foi eclipsado pelo overacting insuportável de Paulo Betti como Theo Pereira - personagem que é uma espécie de alter-ego do autor mas cujo histrionismo afetado às raias do exagero não apenas lembra o tenebroso Crô de Marcelo Serrado em "Fina estampa" (02), do mesmo Aguinaldo, como também presta um desserviço inominável às conquistas da comunidade gay que a própria Globo havia conquistado com o beijo entre Mateus Solano e Thiago Fragoso em "Amor à vida". A subtrama chatíssima do pintor Salvador (Paulo Vilhena imitando Brad Pitt em "Os 12 macacos") diminiu o tempo em cena dos sensacionais Magnólia e Severo (Zezé Polessa e Tato Gabus). Os personagens gays de repente não mais o eram (a Xana de Ailton Graça esqueceu que era apaixonado por Elivaldo - interpretado pela revelação Rafael Losso - e o Leo de Klebber Toledo começou a engraçar-se por Amanda, mais uma atuação sofrível de Adriana Biroli) e o homofóbico Enrico (Joaquim Lopes só não sendo pior em cena do que seu comparsa em destruir o restaurante que um dia foi seu) tornou-se também mau-caráter - assim como outros quase figurantes que, de uma hora pra outra, foram para o lado negro da força sem explicações plausíveis.
Aliás, explicações plausíveis são artigo raro em "Império". A sensacional Drica Moraes saiu do elenco por motivos de saúde e, para surpresa geral, sua personagem não morreu: fez uma cirurgia plástica muito mal explicada e ressurgiu na pele de Marjorie Estiano - alguns espectadores acharam a ideia criativa, outros bem mais numerosos abandonaram a trama de vez depois desse absurdo. Maria Clara, a personagem de Andréia Horta, repentinamente se voltou contra o pai, se unindo aos irmãos na disputa cega pelo poder e perdendo a consistência da personagem - a única que mantinha uma relação de amor paternal na trama. O pintor Salvador iniciou um romance inesperado com Helena (Júlia Fajardo, filha de José Mayer na vida real) mais por necessidade do autor em inventar mais uma história do que por coerência interna. E nem é preciso apontar a entrada do péssimo Carmo Dalla Vecchia no elenco como outro ponto negativo: basta relembrar todos os outros personagens vividos pelo ator para perceber o limite de seu talento. Limite, inclusive, é o que parece ter a imaginação de Aguinaldo Silva, que mais uma vez utiliza seu protagonista como tema de samba-enredo de uma escola de samba fictícia - como fez em "Senhora do destino".
Os erros de "Império" são inúmeros e poderiam render posts e posts. Não é necessário reiterar que Paulo Betti (na pior atuação de sua carreira), Leticia Birkheuer, Romulo Neto, Nanda Costa, Adriana Biroli, Carmo Dalla Vechhia, Joaquim Lopes e Marina Ruy Barbosa estão sofríveis, já que basta assistir a um capítulo para notar tal fato. Mas seria injustiça falar da novela sem louvar aqueles que tentam dar dignidade a ela, com trabalhos acima da média. Além dos já citados Alexandre Nero, Zezé Polessa e Tato Gabus, é preciso reconhecer que Suzy Rego está excelente em sua discrição, Marjorie Estiano está fazendo o possível para segurar um papel de coerência nula, Leandra Leal está muito bem como a heroína Cristina - apesar de seu personagem ter-se esvaziado, também - e a ótima Dani Barros rouba a cena como a sem-noção Lorraine. São eles que ainda fazem com que valha a pena perder alguns minutos diante da tv. Até que os coadjuvantes - numerosos e mal interpretados - estraguem tudo novamente. Que venha "Babilônia", do mestre Gilberto Braga.
A novela, como afirmado anteriormente, começou bem. Aguinaldo Silva, apesar de tudo, é um autor experiente e sabe como expor suas tramas e construir seus personagens de modo a interligá-los de maneira inteligente, além de ser um exímio construtor de diálogos - ninguém que é co-autor de "Roque Santeiro" e "Vale tudo" e autor principal de "Tieta" pode ser acusado de não saber escrever um bom texto teledramatúrgico. O problema é que, com o passar do tempo, os (muitos) defeitos da novela acabaram por chamar mais a atenção do que suas (poucas mas sólidas) qualidades. Então o show de Alexandre Nero no papel principal foi eclipsado pelo overacting insuportável de Paulo Betti como Theo Pereira - personagem que é uma espécie de alter-ego do autor mas cujo histrionismo afetado às raias do exagero não apenas lembra o tenebroso Crô de Marcelo Serrado em "Fina estampa" (02), do mesmo Aguinaldo, como também presta um desserviço inominável às conquistas da comunidade gay que a própria Globo havia conquistado com o beijo entre Mateus Solano e Thiago Fragoso em "Amor à vida". A subtrama chatíssima do pintor Salvador (Paulo Vilhena imitando Brad Pitt em "Os 12 macacos") diminiu o tempo em cena dos sensacionais Magnólia e Severo (Zezé Polessa e Tato Gabus). Os personagens gays de repente não mais o eram (a Xana de Ailton Graça esqueceu que era apaixonado por Elivaldo - interpretado pela revelação Rafael Losso - e o Leo de Klebber Toledo começou a engraçar-se por Amanda, mais uma atuação sofrível de Adriana Biroli) e o homofóbico Enrico (Joaquim Lopes só não sendo pior em cena do que seu comparsa em destruir o restaurante que um dia foi seu) tornou-se também mau-caráter - assim como outros quase figurantes que, de uma hora pra outra, foram para o lado negro da força sem explicações plausíveis.
Aliás, explicações plausíveis são artigo raro em "Império". A sensacional Drica Moraes saiu do elenco por motivos de saúde e, para surpresa geral, sua personagem não morreu: fez uma cirurgia plástica muito mal explicada e ressurgiu na pele de Marjorie Estiano - alguns espectadores acharam a ideia criativa, outros bem mais numerosos abandonaram a trama de vez depois desse absurdo. Maria Clara, a personagem de Andréia Horta, repentinamente se voltou contra o pai, se unindo aos irmãos na disputa cega pelo poder e perdendo a consistência da personagem - a única que mantinha uma relação de amor paternal na trama. O pintor Salvador iniciou um romance inesperado com Helena (Júlia Fajardo, filha de José Mayer na vida real) mais por necessidade do autor em inventar mais uma história do que por coerência interna. E nem é preciso apontar a entrada do péssimo Carmo Dalla Vecchia no elenco como outro ponto negativo: basta relembrar todos os outros personagens vividos pelo ator para perceber o limite de seu talento. Limite, inclusive, é o que parece ter a imaginação de Aguinaldo Silva, que mais uma vez utiliza seu protagonista como tema de samba-enredo de uma escola de samba fictícia - como fez em "Senhora do destino".
Os erros de "Império" são inúmeros e poderiam render posts e posts. Não é necessário reiterar que Paulo Betti (na pior atuação de sua carreira), Leticia Birkheuer, Romulo Neto, Nanda Costa, Adriana Biroli, Carmo Dalla Vechhia, Joaquim Lopes e Marina Ruy Barbosa estão sofríveis, já que basta assistir a um capítulo para notar tal fato. Mas seria injustiça falar da novela sem louvar aqueles que tentam dar dignidade a ela, com trabalhos acima da média. Além dos já citados Alexandre Nero, Zezé Polessa e Tato Gabus, é preciso reconhecer que Suzy Rego está excelente em sua discrição, Marjorie Estiano está fazendo o possível para segurar um papel de coerência nula, Leandra Leal está muito bem como a heroína Cristina - apesar de seu personagem ter-se esvaziado, também - e a ótima Dani Barros rouba a cena como a sem-noção Lorraine. São eles que ainda fazem com que valha a pena perder alguns minutos diante da tv. Até que os coadjuvantes - numerosos e mal interpretados - estraguem tudo novamente. Que venha "Babilônia", do mestre Gilberto Braga.
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
MARIETA SEVERO - A DAMA DO TEATRO E SUAS AVENTURAS NA TV
Para toda uma nova geração, que desconhece sua vasta e brilhante experiência em teatro, que vai desde sua colaboração com o ex-marido Chico Buarque em "Roda viva" e "Ópera do malandro" até seu encontro com Andréa Beltrão na fundação do Teatro Poeira e na peça "As centenárias", de Newton Moreno e a premiada montagem de "Incêndios" - passando pelo casamento profissional com o dramaturgo Naum Alves de Souza em quatro peças nos anos 80 - Marieta Severo vai ser conhecida sempre como Dona Nenê, a matriarca que interpretou de 2001 a 2014 na segunda versão da série "A grande família". É uma pena, no entanto, que uma atriz de sua estatura, capaz de saltar do humor mais sofisticado ao drama mais devastador em poucos minutos, tenha que ficar marcada por um papel tão pouco desafiador. Hoje com 68 anos de idade, Marieta tem uma carreira extraordinária em todos os veículos possíveis - no cinema marcou presença nos clássicos setentistas "Chuvas de verão" e "Bye bye, Brasil", de Cacá Diegues, no drama familiar "Com licença, eu vou à luta", de Lui Faria e como Lucinha Araújo em "Cazuza, o tempo não para", de Walter Carvalho e Sandra Werneck - isso sem mencionar "Carlota Joaquina, princesa do Brazil", de Carla Camuratti, considerado o marco inicial da retomada do cinema nacional que vem se mantendo até hoje. E na televisão, fez parte de alguns dos grandes sucessos de audiência da Globo, intercalando humor e sensibilidade sempre com uma dose inegável de charme.
Sua estreia na Globo se deu quando ela ainda não tinha completado vinte anos. Em "O Sheik de Agadir" (66), da cubana Gloria Magadan, ela deu vida à Éden, uma princesa árabe que, apesar do aspecto frágil, se revelava, no final, uma assassina cruel que eliminava suas vítimas enforcadas - coisas absurdas que Magadan fazia constantemente. O exílio voluntário ao lado de Chico em 1969 - que a fez dar à luz à sua filha Sílvia (que também se tornaria atriz) na Itália - também a manteve afastada da TV por uma longa década. Seu retorno aconteceu na minissérie "Bandidos da falange", de Aguinaldo Silva e Doc Comparato, em 1983, mesmo ano em que viveu Dinah, uma das suspeitas de um crime do passado na novela "Champagne", de Cassiano Gabus Mendes - era divertidíssimo testemunhar seus embates com o filho Greg (Cássio Gabus Mendes), que voltava da Europa como punk nos primórdios do movimento no Brasil. Em 1984, exercitando sua veia cômica, ela interpretou Catarina, a filha mais velha do empresário interpretado por Walmor Chagas na novela "Vereda tropical", de Carlos Lombardi. Seu dueto com Maria Zilda - que vivia sua irmã Verônica - era impagável e, sob a direção de Guel Arraes (que viria a dirigí-la em episódios da série "A comédia da vida privada", nos anos 90) ela mostrou que sabia ser engraçada.
Em 1985, Marieta voltou a trabalhar com Cassiano Gabus Mendes na primeira versão de "Ti-ti-ti", novamente como a mãe do filho do autor. Ela era Suzana, a ex-mulher de Ariclenes (Luiz Gustavo), que vivia uma relação de carinho com o pai de seu filho Luti (no remake de 2000 o papel foi de Malu Mader, que nessa versão interpretava Valquíria, namorada do rapaz). Sua volta às telinhas se deu quatro anos mais tarde, mais uma vez com o genial texto de Cassiano. Em "Que rei sou eu?", ela mostrava seu lado político e ativista na pele de Madeleine de Bergeron, a pré-feminista que colocava fogo no reino de Avilan com seus escritos conclamando as mulheres a lutarem por seus direitos e que lutava contra a própria rainha Valentine (Tereza Rachel) para manter ao seu lado o marido (Daniel Filho), conselheiro da moeda do país em crise.
O horário das 19h manteve Marieta em 1992, mas dessa vez em um papel bastante diferente. Em "Deus nos acuda", de Sílvio de Abreu, ela deu vida à Elvira, a vilã da história, e mostrou que quando má ela era ainda melhor do que quando era heroína. Gilberto Braga - o autor que melhor sabe criar vilões na tv brasileira - aproveitou a deixa e deu a ela a pérfida Loreta Pellegrini em sua novela seguinte, "Pátria minha" (94), que infelizmente não se tornou o sucesso esperado. Mesmo assim, Marieta não deixou a peteca cair e roubava cada cena em que aparecia. Depois desse espetáculo particular, o público só foi reencontrar Marieta em seis anos, como Alma, a possessiva tia de Edu (Reynaldo Giannechini), na novela "Laços de família". Sua personagem, que era casada com o mulherengo Alexandre Borges, acabava surpreendendo a audiência no final da trama, quando adota os gêmeos que o marido tem com a empregada doméstica que morre no parto - cenas emocionantes que lhe proporcionaram um prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte. Um dia após o final das gravações, Marieta já encarnava Dona Nenê e o resto é história...
Dispensada do papel que lhe fez companhia por mais de dez anos, Marieta Severo está sendo cogitada para integrar o elenco do próximo trabalho de Walcyr Carrasco (Deus nos defenda). A novela talvez não vá ser grande coisa - o currículo do autor não é empolgante - mas vê-la diariamente nas telinhas esbanjando talento será um enorme prazer.
Sua estreia na Globo se deu quando ela ainda não tinha completado vinte anos. Em "O Sheik de Agadir" (66), da cubana Gloria Magadan, ela deu vida à Éden, uma princesa árabe que, apesar do aspecto frágil, se revelava, no final, uma assassina cruel que eliminava suas vítimas enforcadas - coisas absurdas que Magadan fazia constantemente. O exílio voluntário ao lado de Chico em 1969 - que a fez dar à luz à sua filha Sílvia (que também se tornaria atriz) na Itália - também a manteve afastada da TV por uma longa década. Seu retorno aconteceu na minissérie "Bandidos da falange", de Aguinaldo Silva e Doc Comparato, em 1983, mesmo ano em que viveu Dinah, uma das suspeitas de um crime do passado na novela "Champagne", de Cassiano Gabus Mendes - era divertidíssimo testemunhar seus embates com o filho Greg (Cássio Gabus Mendes), que voltava da Europa como punk nos primórdios do movimento no Brasil. Em 1984, exercitando sua veia cômica, ela interpretou Catarina, a filha mais velha do empresário interpretado por Walmor Chagas na novela "Vereda tropical", de Carlos Lombardi. Seu dueto com Maria Zilda - que vivia sua irmã Verônica - era impagável e, sob a direção de Guel Arraes (que viria a dirigí-la em episódios da série "A comédia da vida privada", nos anos 90) ela mostrou que sabia ser engraçada.
Em 1985, Marieta voltou a trabalhar com Cassiano Gabus Mendes na primeira versão de "Ti-ti-ti", novamente como a mãe do filho do autor. Ela era Suzana, a ex-mulher de Ariclenes (Luiz Gustavo), que vivia uma relação de carinho com o pai de seu filho Luti (no remake de 2000 o papel foi de Malu Mader, que nessa versão interpretava Valquíria, namorada do rapaz). Sua volta às telinhas se deu quatro anos mais tarde, mais uma vez com o genial texto de Cassiano. Em "Que rei sou eu?", ela mostrava seu lado político e ativista na pele de Madeleine de Bergeron, a pré-feminista que colocava fogo no reino de Avilan com seus escritos conclamando as mulheres a lutarem por seus direitos e que lutava contra a própria rainha Valentine (Tereza Rachel) para manter ao seu lado o marido (Daniel Filho), conselheiro da moeda do país em crise.
O horário das 19h manteve Marieta em 1992, mas dessa vez em um papel bastante diferente. Em "Deus nos acuda", de Sílvio de Abreu, ela deu vida à Elvira, a vilã da história, e mostrou que quando má ela era ainda melhor do que quando era heroína. Gilberto Braga - o autor que melhor sabe criar vilões na tv brasileira - aproveitou a deixa e deu a ela a pérfida Loreta Pellegrini em sua novela seguinte, "Pátria minha" (94), que infelizmente não se tornou o sucesso esperado. Mesmo assim, Marieta não deixou a peteca cair e roubava cada cena em que aparecia. Depois desse espetáculo particular, o público só foi reencontrar Marieta em seis anos, como Alma, a possessiva tia de Edu (Reynaldo Giannechini), na novela "Laços de família". Sua personagem, que era casada com o mulherengo Alexandre Borges, acabava surpreendendo a audiência no final da trama, quando adota os gêmeos que o marido tem com a empregada doméstica que morre no parto - cenas emocionantes que lhe proporcionaram um prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte. Um dia após o final das gravações, Marieta já encarnava Dona Nenê e o resto é história...
Dispensada do papel que lhe fez companhia por mais de dez anos, Marieta Severo está sendo cogitada para integrar o elenco do próximo trabalho de Walcyr Carrasco (Deus nos defenda). A novela talvez não vá ser grande coisa - o currículo do autor não é empolgante - mas vê-la diariamente nas telinhas esbanjando talento será um enorme prazer.
terça-feira, 8 de abril de 2014
O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM "EM FAMÍLIA"?
Depois de meses a fio sendo obrigado a aturar os absurdos de "Amor à vida", o fiel público noveleiro tinha motivos de sobra para comemorar a estreia de "Em família", no dia 03 de fevereiro. Primeiro, o currículo do autor Manoel Carlos deixava antever uma qualidade rara no texto e personagens bem construídos. Depois, saíam de cenas os vilões cartunescos e inverossímeis de Walcyr Carrasco para dar lugar a gente muito mais perto da realidade - ainda que não seja muita gente que frequente os ambientes sofisticados do Leblon retratados na novela, é muito mais fácil acreditar em uma mulher obcecada pela maternidade do que em uma secretária vingativa que resolve cegar o marido mais velho, afinal de contas. Por que, então, mais de dois meses depois de sua estreia, a história da 9ª Helena criada pelo autor carioca ainda não empolgou sua audiência?
Bom, qualquer pessoa - QUALQUER pessoa, até aquela dotada da maior boa-vontade do mundo - há de convir que é um desafio à lógica entender a escalação de elenco na família da protagonista. Natália do Valle ser mãe de Julia Lemmertz já é forçar a barra em limites estratosféricos, mas a coisa se estende ad infinitum: Ana Beatriz Nogueira é mãe de Gabriel Braga Nunes, Vanessa Gerbelli é a tia mais velha de Júlia, Giovanna Antonelli é irmã mais nova do Thiago Mendonça... enfim, tem pra todos os gostos. Aparentemente, o único integrante do elenco que tem a idade real do personagem é Paulo José - felizmente lembrado pela Globo como o grande ator que é. E Antonelli, é bom que se diga, faz pela milésima vez a mesma personagem que vem fazendo desde a Capitu, de "Laços de família". Ah, não é? Ok, ela não é garota de programa, nem vilã loira, nem delegada, nem vive no Marrocos, mas o tom de voz e a interpretação "naturalista" - também conhecida como "seja você mesma que tá tudo bem" - mostram que, apesar dos fãs, ela não é uma atriz das mais capazes, além de ser dona de uma personagem pra lá de chata - e Maneco vai penar em fazer o público torcer por um casal lésbico onde uma das partes abandona o marido doente.
E se o texto de "Em família" é um bálsamo para os ouvidos daqueles que passaram quase um ano escutando os diálogos de teatro escolar de "Amor à vida", a lentidão com que a trama se desenvolve já está fazendo muita gente abandonar o barco. Depois de se ver obrigada a apressar a edição dos capítulos iniciais - que mostrava como começou a obsessão entre Laerte e Helena (porque é complicado acreditar que é amor algo tão doentio) - porque a audiência estava pedindo mais ação, era de se imaginar que a Globo solicitaria ao veterano autor um pouco mais de pressa. Não é o que está acontecendo. Se o público ficar uma semana inteira sem assistir à novela, vai voltar a prestigiá-la praticamente no mesmo ponto onde parou. O triângulo amoroso Helena-Laerte-Luiza (Bruna Marquezine dando conta do recado sem muito esforço) ainda não saiu do lugar, ilustrado pelo irritante som da flauta do protagonista e atrapalhado por uma das poucas personagens de atitude na novela, a Shirley de Vivianne Pasmanter - que, apesar disso, faz pela terceira vez uma antagonista criada por Manoel Carlos.
Somada a esse ritmo de cágado - que nem mesmo a poesia dos diálogos consegue disfarçar, principalmente com a direção quase contemplativa de Jayme Monjardim - existe a trilha sonora. Não deixa de ser ótimo ouvir bossa nova desde a abertura até o encerramento, mas a impressão que se tem é que desde "Laços de família" as músicas que acompanham as Helenas do autor são sempre as mesmas. Ana Carolina cantando "Eu sei que vou te amar" nem dá para comparar com Daniel uivando "Maravida", mas mesmo assim é complicado se empolgar com Sandy e Manu Gavassi - cantorazinha de quinta categoria e atriz ainda pior escalada como a namorada do filho de Laerte, vivido por Ronny Kriwat.
Mas nem tudo é ruim na novela das nove. Só o fato de não ter um núcleo cômico sem graça e prescindir de gente gritando bordões de "Zorra total" já é um alívio para a inteligência do espectador, mas outras qualidades presentes podem reverter o quadro de audiência insatisfatória. Vanessa Gerbelli e Angela Vieira tem em mãos personagens ricas que tem tudo para monopolizar a atenção. O núcleo do asilo para idosos pode fazer graça sem apelar para o humor rasteiro, além de contar com a ótima Betty Goffman como a vilã Miss Lauren. Tramas interessantes - como a de André (Bruno Gissoni) que renega a mãe adotiva negra - podem assumir maior importância com o desenrolar da história e até mesmo a história central, quando realmente começar, pode atear fogo ao horário nobre - apesar das rusgas de bastidores que vem atrapalhando ainda mais seu caminho para o sucesso. Eu ainda acredito em "Em família".
Bom, qualquer pessoa - QUALQUER pessoa, até aquela dotada da maior boa-vontade do mundo - há de convir que é um desafio à lógica entender a escalação de elenco na família da protagonista. Natália do Valle ser mãe de Julia Lemmertz já é forçar a barra em limites estratosféricos, mas a coisa se estende ad infinitum: Ana Beatriz Nogueira é mãe de Gabriel Braga Nunes, Vanessa Gerbelli é a tia mais velha de Júlia, Giovanna Antonelli é irmã mais nova do Thiago Mendonça... enfim, tem pra todos os gostos. Aparentemente, o único integrante do elenco que tem a idade real do personagem é Paulo José - felizmente lembrado pela Globo como o grande ator que é. E Antonelli, é bom que se diga, faz pela milésima vez a mesma personagem que vem fazendo desde a Capitu, de "Laços de família". Ah, não é? Ok, ela não é garota de programa, nem vilã loira, nem delegada, nem vive no Marrocos, mas o tom de voz e a interpretação "naturalista" - também conhecida como "seja você mesma que tá tudo bem" - mostram que, apesar dos fãs, ela não é uma atriz das mais capazes, além de ser dona de uma personagem pra lá de chata - e Maneco vai penar em fazer o público torcer por um casal lésbico onde uma das partes abandona o marido doente.
E se o texto de "Em família" é um bálsamo para os ouvidos daqueles que passaram quase um ano escutando os diálogos de teatro escolar de "Amor à vida", a lentidão com que a trama se desenvolve já está fazendo muita gente abandonar o barco. Depois de se ver obrigada a apressar a edição dos capítulos iniciais - que mostrava como começou a obsessão entre Laerte e Helena (porque é complicado acreditar que é amor algo tão doentio) - porque a audiência estava pedindo mais ação, era de se imaginar que a Globo solicitaria ao veterano autor um pouco mais de pressa. Não é o que está acontecendo. Se o público ficar uma semana inteira sem assistir à novela, vai voltar a prestigiá-la praticamente no mesmo ponto onde parou. O triângulo amoroso Helena-Laerte-Luiza (Bruna Marquezine dando conta do recado sem muito esforço) ainda não saiu do lugar, ilustrado pelo irritante som da flauta do protagonista e atrapalhado por uma das poucas personagens de atitude na novela, a Shirley de Vivianne Pasmanter - que, apesar disso, faz pela terceira vez uma antagonista criada por Manoel Carlos.
Somada a esse ritmo de cágado - que nem mesmo a poesia dos diálogos consegue disfarçar, principalmente com a direção quase contemplativa de Jayme Monjardim - existe a trilha sonora. Não deixa de ser ótimo ouvir bossa nova desde a abertura até o encerramento, mas a impressão que se tem é que desde "Laços de família" as músicas que acompanham as Helenas do autor são sempre as mesmas. Ana Carolina cantando "Eu sei que vou te amar" nem dá para comparar com Daniel uivando "Maravida", mas mesmo assim é complicado se empolgar com Sandy e Manu Gavassi - cantorazinha de quinta categoria e atriz ainda pior escalada como a namorada do filho de Laerte, vivido por Ronny Kriwat.
Mas nem tudo é ruim na novela das nove. Só o fato de não ter um núcleo cômico sem graça e prescindir de gente gritando bordões de "Zorra total" já é um alívio para a inteligência do espectador, mas outras qualidades presentes podem reverter o quadro de audiência insatisfatória. Vanessa Gerbelli e Angela Vieira tem em mãos personagens ricas que tem tudo para monopolizar a atenção. O núcleo do asilo para idosos pode fazer graça sem apelar para o humor rasteiro, além de contar com a ótima Betty Goffman como a vilã Miss Lauren. Tramas interessantes - como a de André (Bruno Gissoni) que renega a mãe adotiva negra - podem assumir maior importância com o desenrolar da história e até mesmo a história central, quando realmente começar, pode atear fogo ao horário nobre - apesar das rusgas de bastidores que vem atrapalhando ainda mais seu caminho para o sucesso. Eu ainda acredito em "Em família".
domingo, 30 de março de 2014
REGINA DUARTE: DE NAMORADINHA A ÍCONE
A história da televisão brasileira não seria a mesma sem Regina Duarte. Exagero? Dificilmente, uma vez que em seu currículo constam alguns dos maiores fenômenos de audiência e popularidade da teledramaturgia nacional. O nome de Regina - nascida em Franca, no interior de São Paulo, filha de um militar e uma professora de piano - está nos créditos de "Irmãos Coragem", "Selva de pedra", "Malu mulher", "Sétimo sentido", "Roque Santeiro", "Vale tudo" e "Rainha da sucata", além da tríade de Helenas de Manoel Carlos que protagonizou de 1995 a 2006 - em "História de amor", "Por amor" e "Páginas da vida". Mesmo que jamais tivesse participado de mais de uma dezena de filmes e peças de teatro, a ex-Namoradinha do Brasil já teria seu nome escrito indelevelmente no coração e na mente de toda a população brasileira, mesmo daqueles que questionam seu posicionamento político - sim, Regina, como acontece com toda pessoa pública que tem a coragem de manifestar suas ideologias, passou por maus bocados graças ao patrulhamento ideológico que também já fez estragos nas carreiras de Marília Pêra e Cláudia Raia.
Nascida em 1947, Regina iniciou a carreira de atriz em 1965, tanto no teatro - em uma montagem de "A megera domada" dirigida por Antunes Filho - quanto na televisão, na novela "A deusa vencida", de Ivani Ribeiro, ainda na TV Excelsior. Foi preciso que outras seis novelas pavimentassem seu caminho até a Globo, onde estreou somente em 1969, mas em grande estilo. Ela foi Andréa, a protagonista de "Véu de noiva", a primeira novela global que dialogava com a realidade brasileira, em detrimento dos melodramas absurdos de Gloria Magadan - autora mexicana que enfiava goela abaixo do espectador rocambolescas tramas passadas em países exóticos. Escrita por Janete Clair, "Véu de noiva" abriu a porta para tramas contemporâneas e modernas, que já eram rotina em outras emissoras desde "Beto Rockefeller" (1968, TV Tupi) e Regina estava lá, pioneira, junto a Cláudio Marzo, ao lado de quem, pelos anos seguintes, formaria um dos pares românticos seminais da TV brasileira. Em "Irmãos Coragem", eles viveram Duda e Ritinha - um jogador de futebol famoso e a namorada de infância com quem ele se vê obrigado a casar - e, apesar de formarem a segunda dupla romântica da novela, saíram antes do final para protagonizar "Minha doce namorada", de Vicente Sesso.
Foi a partir dessa novela, onde viveu a meiga Patrícia, que Regina começou a carregar o título de "Namoradinha do Brasil" - título esse que, apesar do carinho inerente, tornou-se um fardo a ser descartado para o bem do futuro de sua carreira. Apesar disso, ainda demoraria alguns anos para que Regina deixasse de lado a imagem de heroína impoluta que a acompanhava. Em 1972, ela protagonizou um de seus maiores sucessos. Na pele de Simone Marques, em "Selva de pedra" - mais uma mágica de Janete Clair no horário nobre - Regina conquistou o Brasil inteiro, com uma audiência até hoje impressionante: 100% dos aparelhos brasileiros estavam ligados no crucial capítulo onde Simone (que se fazia passar pela artista plástica Rosana Reis depois de ter sido dada como morta) é desmascarada pelo marido Cristiano Vilhena (Francisco Cuoco), a quem responsabilizava por seu atentado. O êxito da novela foi tanto que, embalado pela romântica "Rock and roll lullaby", a trama voltou ao ar em 1975 - em versão compacta enquanto a Globo gravava os primeiros capítulos de "Pecado capital" depois da proibição de "Roque Santeiro" pela Censura Federal - e em um remake, realizado em 1986 com Fernanda Torres no papel de Simone. Por melhor atriz que Fernandinha seja, porém, o sucesso não chegou nem perto do original: Simone Marques foi e sempre será Regina na memória dos espectadores.
Em 1973, uma nova parceira entre Regina e Cláudio Marzo chegou às telinhas: "Carinhoso", escrita por Lauro César Muniz com base no filme "Sabrina", de Billy Wilder, trazia a namoradinha da América no papel de Cecília, uma aeromoça dividida entre os irmãos milionários Humberto (Marzo) e Eduardo (Marcos Paulo). Sucesso de audiência no horário das 19h, "Carinhoso" teve que ser encurtada não por falhar em conquistar o público, mas sim porque Regina descobriu-se grávida pela segunda vez. Em abril de 1974, sua filha, a atriz Gabriela, veio ao mundo. Em maio, Regina já estava no elenco de "Fogo sobre terra", na pele de Bárbara, interesse amoroso de um dos personagens principais, o Pedro Azulão interpretado por Juca de Oliveira. O sucesso da novela - apesar da ação rígida da Censura - não impediu, porém, que Regina resolvesse finalmente dar uma virada na carreira. E, para surpresa de muitos, essa virada não começou na televisão, e sim no teatro. Na peça "Reveillon", de Flávio Márcio e dirigida por Paulo José, ela ousou ao interpretar Janete, uma prostituta que pouco ou nada lembrava seus doces personagens globais.
O retorno à TV só aconteceu em 1977 e dava prosseguimento a suas ambições de ser respeitada como atriz e não mais ser considerada apenas um símbolo romântico. "Nina", de Walter George Durst, foi apresentada às 22h e mostrava Regina como uma professora que, nos anos 20, lutava contra o absolutismo político de uma cidade do interior. O público não chegou a encantar-se, mas, persistente, Regina manteve-se firme em seus ideais. Viveu Branca Dias, a protagonista de "O santo inquérito", de Dias Gomes, no teatro em 1978 e em 1979 provocou a ira das senhoras de Santana com mais um de seus papéis icônicos: a socióloga que encarava um divórcio no seriado "Malu mulher", criado por Daniel Filho. Falando de temas-tabu com aborto, homossexualidade, orgasmo e masturbação, a série - premiada internacionalmente - incomodou os mais conservadores, mas deu à Regina a chance que ela sempre procurou de mostrar que seu talento ia além das mocinhas chorosas das telenovelas. Mas, apesar do imenso sucesso, Malu durou apenas dois anos. Depois disso, o público foi brindado com outro grande trabalho do trio que havia legado "Selva de pedra" à história: "Sétimo sentido", que estreou em 1982, foi escrita por Janete Clair e estrelada por Regina e Francisco Cuoco.
Em "Sétimo sentido", Regina vivia a paranormal Luana Camará, que incorporava a atriz italiana Priscilla Capricce e se envolvia, quando em transe, com seu pior inimigo, o advogado Tião Bento (Cuoco). Uma das grandes novela dos anos 80, "Sétimo sentido" nunca chegou a ser reprisada - Canal Viva, que tal essa surpresa ao público? - e, como curiosidade de bastidores, um dos capítulos mostrou, integralmente, uma apresentação de "O santo inquérito" estrelada por Capricce (coisa inimaginável hoje em dia, com a audiência sendo medida segundo a segundo e transformando qualquer novela em um jogo interativo com uma plateia frequentemente mal-acostumada com a mediocridade). Mas, depois de mais esse gol de placa, Regina voltou a ousar: rompeu com a Globo e foi produzir um seriado independente, "Joana", no qual ela vivia uma repórter investigativa. Apresentada na Rede Manchete - e depois no SBT - a série não chegou a ter uma audiência representativa, mas mostrava que, como atriz, ela não se prendia a uma zona de conforto.
Em 1985, veio aquele que se transformaria em mais um papel inesquecível e marcante: a viúva Porcina da novela "Roque Santeiro" - co-escrita por Dias Gomes, Aguinaldo Silva e Marcílio Moraes - deixou o país de boca aberta. Desbocada, quase amoral, espalhafatosa e dona de um humor jamais visto em uma interpretação de Regina, Porcina ditou moda, virou mania e dizimou toda e qualquer dúvida que ainda pudesse haver sobre a versatilidade da atriz. Ninguém poderia imaginar que seu próximo papel na tv - por mais diferente que pudesse ser - ela voltaria a monopolizar a atenção do país. Em 1988, Raquel Aciolli, uma mulher com honestidade à toda prova que precisava lutar contra a ambição desmedida e amoral da única filha (Glória Pires) na novela "Vale tudo" - de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères - tornou-se o símbolo de um país cansado da corrupção, da impunidade e do "jeitinho brasileiro". Por mais que as vilãs da novela - a Fátima de Glória Pires e a Odete Roitman de Beatriz Segall - tenham conquistado mais a atenção do público, é inegável que a força da novela (que voltou a chamar a atenção em sua reprise no Canal Viva) se mantém intocada, graças à força do texto, à direção inspirada e a algumas cenas antológicas - quem consegue esquecer da infame cena da prova do vestido de noiva, em que Raquel desmascara sua filha diante da futura sogra?
O trabalho seguinte de Regina Duarte na Globo foi outro sucesso retumbante: "Rainha da sucata", de Sílvio de Abreu, contava a trajetória de uma bem-sucedida empresária do ramo do ferro-velho, Maria do Carmo, em conquistar seu amor de adolescência, o ricaço decadente Edu Albuquerque Figueroa (Tony Ramos). Equilibrando o texto com um humor sofisticado e ingredientes do mais puro melodrama, a novela obteve ferrenha concorrência com "Pantanal", da TV Manchete, mas chegou a seu último capítulo com uma audiência animadora e elogios unânimes à protagonista de Regina - mais uma mulher dotada de seu irresistível carisma. Antes, porém, de voltar às novelas, Regina tentou novamente emplacar um seriado: "Retrato de mulher" lhe dava a oportunidade de viver uma personagem diferente a cada episódio e ser dirigida pelo então marido Del Rangel. A repercussão não foi das mais entusiasmadas, mas, em seguida, uma nova personagem conquistaria o país.
"História de amor" foi o primeiro encontro entre Regina e as Helenas de Manoel Carlos. Como uma mulher divorciada que se apaixonava por Carlos (José Mayer), um médico recém-casado com a fútil socialite Paula (Carolina Ferraz), ela casou-se perfeitamente com o texto naturalista e poético de Maneco - a ponto de, segundo ela mesma, não querer que a novela acabasse nunca. Como isso não foi possível, ela teve seu pedido atendido de outra forma: uma nova Helena, no horário nobre, e ao lado da filha Gabriela. "Por amor" novamente atingiu grandes índices de audiência ao contar a dramática história de uma mãe capaz de um grande sacrifício - entregar o bebê recém-nascido à filha mais velha, que acaba de perder o seu - mesmo que isso signifique perder o homem que ama (no caso, o Atílio interpretado por Antonio Fagundes, que já havia sido seu par romântico em "Nina" e "Vale tudo").
Antes que a terceira Helena surgisse em sua carreira - na novela "Páginas da vida", de 2006 - Regina voltou a contracenar com Gabriela na minissérie "Chiquinha Gonzaga", em 1999 e com Glória Pires, na fracassada "Desejos de mulher", onde viveu a estilista Andréa Vargas. Sua terceira parceria com Manoel Carlos foi um de seus últimos papéis de destaque. Na tenebrosa "Três irmãs", ela foi ignorada, assim como todo o elenco, que incluía Cláudia Abreu, Giovanna Antonelli e Carolina Dieckman. E no remake de "O astro", exibida em 2011, ela viveu Clô, a esposa/viúva/assassina do empresário Salomão Hayalla (Daniel Filho, que já havia sido seu marido em "Vale tudo"). Seu trabalho foi, provavelmente, um dos destaques da macrossérie e é, até hoje, sua derradeira aparição na tv.
Mas, além de ser uma atriz carismática e indiscutivelmente uma das mais importantes das artes cênicas nacionais, Regina Duarte também não é mulher de ficar quieta quando trata-se de posicionamentos políticos. O ápice das polêmicas ocorreu em 2002, quando gravou um depoimento, exibido no horário eleitoral gratuito, onde afirmava ter medo do futuro do Brasil caso Lula fosse eleito presidente. Sua frase no vídeo - "Eu tenho medo!" - ganhou as páginas dos jornais e o mundo artístico, tão afeito ao já citado patrulhamento ideológico, não perdoou suas declarações - o que não a impediu de reiterá-las em uma entrevista de 2006. O caráter firme de Regina também ficou óbvio em 1974, quando, eleita pelo Troféu Imprensa como a melhor atriz do ano de 1973 por "Carinhoso" - sua quinta vitória - ela recusou o prêmio, oferecendo-o à Eva Wilma por seu desempenho na primeira versão de "Mulheres de areia". Generosa, talentosa e carismática, Regina Duarte é, sem sombras de dúvida, um das maiores estrelas do nosso país e um ícone da teledramaturgia brasileira.
Nascida em 1947, Regina iniciou a carreira de atriz em 1965, tanto no teatro - em uma montagem de "A megera domada" dirigida por Antunes Filho - quanto na televisão, na novela "A deusa vencida", de Ivani Ribeiro, ainda na TV Excelsior. Foi preciso que outras seis novelas pavimentassem seu caminho até a Globo, onde estreou somente em 1969, mas em grande estilo. Ela foi Andréa, a protagonista de "Véu de noiva", a primeira novela global que dialogava com a realidade brasileira, em detrimento dos melodramas absurdos de Gloria Magadan - autora mexicana que enfiava goela abaixo do espectador rocambolescas tramas passadas em países exóticos. Escrita por Janete Clair, "Véu de noiva" abriu a porta para tramas contemporâneas e modernas, que já eram rotina em outras emissoras desde "Beto Rockefeller" (1968, TV Tupi) e Regina estava lá, pioneira, junto a Cláudio Marzo, ao lado de quem, pelos anos seguintes, formaria um dos pares românticos seminais da TV brasileira. Em "Irmãos Coragem", eles viveram Duda e Ritinha - um jogador de futebol famoso e a namorada de infância com quem ele se vê obrigado a casar - e, apesar de formarem a segunda dupla romântica da novela, saíram antes do final para protagonizar "Minha doce namorada", de Vicente Sesso.
Foi a partir dessa novela, onde viveu a meiga Patrícia, que Regina começou a carregar o título de "Namoradinha do Brasil" - título esse que, apesar do carinho inerente, tornou-se um fardo a ser descartado para o bem do futuro de sua carreira. Apesar disso, ainda demoraria alguns anos para que Regina deixasse de lado a imagem de heroína impoluta que a acompanhava. Em 1972, ela protagonizou um de seus maiores sucessos. Na pele de Simone Marques, em "Selva de pedra" - mais uma mágica de Janete Clair no horário nobre - Regina conquistou o Brasil inteiro, com uma audiência até hoje impressionante: 100% dos aparelhos brasileiros estavam ligados no crucial capítulo onde Simone (que se fazia passar pela artista plástica Rosana Reis depois de ter sido dada como morta) é desmascarada pelo marido Cristiano Vilhena (Francisco Cuoco), a quem responsabilizava por seu atentado. O êxito da novela foi tanto que, embalado pela romântica "Rock and roll lullaby", a trama voltou ao ar em 1975 - em versão compacta enquanto a Globo gravava os primeiros capítulos de "Pecado capital" depois da proibição de "Roque Santeiro" pela Censura Federal - e em um remake, realizado em 1986 com Fernanda Torres no papel de Simone. Por melhor atriz que Fernandinha seja, porém, o sucesso não chegou nem perto do original: Simone Marques foi e sempre será Regina na memória dos espectadores.
Em 1973, uma nova parceira entre Regina e Cláudio Marzo chegou às telinhas: "Carinhoso", escrita por Lauro César Muniz com base no filme "Sabrina", de Billy Wilder, trazia a namoradinha da América no papel de Cecília, uma aeromoça dividida entre os irmãos milionários Humberto (Marzo) e Eduardo (Marcos Paulo). Sucesso de audiência no horário das 19h, "Carinhoso" teve que ser encurtada não por falhar em conquistar o público, mas sim porque Regina descobriu-se grávida pela segunda vez. Em abril de 1974, sua filha, a atriz Gabriela, veio ao mundo. Em maio, Regina já estava no elenco de "Fogo sobre terra", na pele de Bárbara, interesse amoroso de um dos personagens principais, o Pedro Azulão interpretado por Juca de Oliveira. O sucesso da novela - apesar da ação rígida da Censura - não impediu, porém, que Regina resolvesse finalmente dar uma virada na carreira. E, para surpresa de muitos, essa virada não começou na televisão, e sim no teatro. Na peça "Reveillon", de Flávio Márcio e dirigida por Paulo José, ela ousou ao interpretar Janete, uma prostituta que pouco ou nada lembrava seus doces personagens globais.
O retorno à TV só aconteceu em 1977 e dava prosseguimento a suas ambições de ser respeitada como atriz e não mais ser considerada apenas um símbolo romântico. "Nina", de Walter George Durst, foi apresentada às 22h e mostrava Regina como uma professora que, nos anos 20, lutava contra o absolutismo político de uma cidade do interior. O público não chegou a encantar-se, mas, persistente, Regina manteve-se firme em seus ideais. Viveu Branca Dias, a protagonista de "O santo inquérito", de Dias Gomes, no teatro em 1978 e em 1979 provocou a ira das senhoras de Santana com mais um de seus papéis icônicos: a socióloga que encarava um divórcio no seriado "Malu mulher", criado por Daniel Filho. Falando de temas-tabu com aborto, homossexualidade, orgasmo e masturbação, a série - premiada internacionalmente - incomodou os mais conservadores, mas deu à Regina a chance que ela sempre procurou de mostrar que seu talento ia além das mocinhas chorosas das telenovelas. Mas, apesar do imenso sucesso, Malu durou apenas dois anos. Depois disso, o público foi brindado com outro grande trabalho do trio que havia legado "Selva de pedra" à história: "Sétimo sentido", que estreou em 1982, foi escrita por Janete Clair e estrelada por Regina e Francisco Cuoco.
Em "Sétimo sentido", Regina vivia a paranormal Luana Camará, que incorporava a atriz italiana Priscilla Capricce e se envolvia, quando em transe, com seu pior inimigo, o advogado Tião Bento (Cuoco). Uma das grandes novela dos anos 80, "Sétimo sentido" nunca chegou a ser reprisada - Canal Viva, que tal essa surpresa ao público? - e, como curiosidade de bastidores, um dos capítulos mostrou, integralmente, uma apresentação de "O santo inquérito" estrelada por Capricce (coisa inimaginável hoje em dia, com a audiência sendo medida segundo a segundo e transformando qualquer novela em um jogo interativo com uma plateia frequentemente mal-acostumada com a mediocridade). Mas, depois de mais esse gol de placa, Regina voltou a ousar: rompeu com a Globo e foi produzir um seriado independente, "Joana", no qual ela vivia uma repórter investigativa. Apresentada na Rede Manchete - e depois no SBT - a série não chegou a ter uma audiência representativa, mas mostrava que, como atriz, ela não se prendia a uma zona de conforto.
Em 1985, veio aquele que se transformaria em mais um papel inesquecível e marcante: a viúva Porcina da novela "Roque Santeiro" - co-escrita por Dias Gomes, Aguinaldo Silva e Marcílio Moraes - deixou o país de boca aberta. Desbocada, quase amoral, espalhafatosa e dona de um humor jamais visto em uma interpretação de Regina, Porcina ditou moda, virou mania e dizimou toda e qualquer dúvida que ainda pudesse haver sobre a versatilidade da atriz. Ninguém poderia imaginar que seu próximo papel na tv - por mais diferente que pudesse ser - ela voltaria a monopolizar a atenção do país. Em 1988, Raquel Aciolli, uma mulher com honestidade à toda prova que precisava lutar contra a ambição desmedida e amoral da única filha (Glória Pires) na novela "Vale tudo" - de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères - tornou-se o símbolo de um país cansado da corrupção, da impunidade e do "jeitinho brasileiro". Por mais que as vilãs da novela - a Fátima de Glória Pires e a Odete Roitman de Beatriz Segall - tenham conquistado mais a atenção do público, é inegável que a força da novela (que voltou a chamar a atenção em sua reprise no Canal Viva) se mantém intocada, graças à força do texto, à direção inspirada e a algumas cenas antológicas - quem consegue esquecer da infame cena da prova do vestido de noiva, em que Raquel desmascara sua filha diante da futura sogra?
O trabalho seguinte de Regina Duarte na Globo foi outro sucesso retumbante: "Rainha da sucata", de Sílvio de Abreu, contava a trajetória de uma bem-sucedida empresária do ramo do ferro-velho, Maria do Carmo, em conquistar seu amor de adolescência, o ricaço decadente Edu Albuquerque Figueroa (Tony Ramos). Equilibrando o texto com um humor sofisticado e ingredientes do mais puro melodrama, a novela obteve ferrenha concorrência com "Pantanal", da TV Manchete, mas chegou a seu último capítulo com uma audiência animadora e elogios unânimes à protagonista de Regina - mais uma mulher dotada de seu irresistível carisma. Antes, porém, de voltar às novelas, Regina tentou novamente emplacar um seriado: "Retrato de mulher" lhe dava a oportunidade de viver uma personagem diferente a cada episódio e ser dirigida pelo então marido Del Rangel. A repercussão não foi das mais entusiasmadas, mas, em seguida, uma nova personagem conquistaria o país.
"História de amor" foi o primeiro encontro entre Regina e as Helenas de Manoel Carlos. Como uma mulher divorciada que se apaixonava por Carlos (José Mayer), um médico recém-casado com a fútil socialite Paula (Carolina Ferraz), ela casou-se perfeitamente com o texto naturalista e poético de Maneco - a ponto de, segundo ela mesma, não querer que a novela acabasse nunca. Como isso não foi possível, ela teve seu pedido atendido de outra forma: uma nova Helena, no horário nobre, e ao lado da filha Gabriela. "Por amor" novamente atingiu grandes índices de audiência ao contar a dramática história de uma mãe capaz de um grande sacrifício - entregar o bebê recém-nascido à filha mais velha, que acaba de perder o seu - mesmo que isso signifique perder o homem que ama (no caso, o Atílio interpretado por Antonio Fagundes, que já havia sido seu par romântico em "Nina" e "Vale tudo").
Antes que a terceira Helena surgisse em sua carreira - na novela "Páginas da vida", de 2006 - Regina voltou a contracenar com Gabriela na minissérie "Chiquinha Gonzaga", em 1999 e com Glória Pires, na fracassada "Desejos de mulher", onde viveu a estilista Andréa Vargas. Sua terceira parceria com Manoel Carlos foi um de seus últimos papéis de destaque. Na tenebrosa "Três irmãs", ela foi ignorada, assim como todo o elenco, que incluía Cláudia Abreu, Giovanna Antonelli e Carolina Dieckman. E no remake de "O astro", exibida em 2011, ela viveu Clô, a esposa/viúva/assassina do empresário Salomão Hayalla (Daniel Filho, que já havia sido seu marido em "Vale tudo"). Seu trabalho foi, provavelmente, um dos destaques da macrossérie e é, até hoje, sua derradeira aparição na tv.
Mas, além de ser uma atriz carismática e indiscutivelmente uma das mais importantes das artes cênicas nacionais, Regina Duarte também não é mulher de ficar quieta quando trata-se de posicionamentos políticos. O ápice das polêmicas ocorreu em 2002, quando gravou um depoimento, exibido no horário eleitoral gratuito, onde afirmava ter medo do futuro do Brasil caso Lula fosse eleito presidente. Sua frase no vídeo - "Eu tenho medo!" - ganhou as páginas dos jornais e o mundo artístico, tão afeito ao já citado patrulhamento ideológico, não perdoou suas declarações - o que não a impediu de reiterá-las em uma entrevista de 2006. O caráter firme de Regina também ficou óbvio em 1974, quando, eleita pelo Troféu Imprensa como a melhor atriz do ano de 1973 por "Carinhoso" - sua quinta vitória - ela recusou o prêmio, oferecendo-o à Eva Wilma por seu desempenho na primeira versão de "Mulheres de areia". Generosa, talentosa e carismática, Regina Duarte é, sem sombras de dúvida, um das maiores estrelas do nosso país e um ícone da teledramaturgia brasileira.
sábado, 18 de janeiro de 2014
"AMORES ROUBADOS", UM GRANDE ACERTO
Em tempos de novelas que insultam a capacidade cognitiva da audiência - como a atrocidade perpetrada por Walcyr Carrasco no horário nobre - foi um bálsamo estar diante de um texto forte e coerente como o de George Moura, que já havia assinado a autoria de outra minissérie, "O canto da sereia", baseado no livro de Nelson Motta. Ao contrário do que aconteceu ano passado, porém, quando o público teve acesso ao final da história através do romance, o autor - que contou com a supervisão competente de Maria Adelaide Amaral - teve a coragem de alterar drasticamente o final da obra literária. Os puristas - e alguns histéricos que nunca leram o livro e nem sabiam de sua existência até agora - chiaram. Mas nem mesmo eles podem negar que o desfecho de alguns personagens teve uma força e uma ousadia poucas vezes vista na televisão brasileira, valorizados pela direção firme e inspirada.
José Luiz Villamarin - outro egresso de "O canto da sereia", que também tem no currículo a co-direção de "Avenida Brasil" - apresentou, em "Amores roubados", um Nordeste a anos-luz de distância daquele que as novelas insistem em mostrar. Sem deixar de lado um cenário agreste, fotografado com maestria pelo veterano Walter Carvalho, Vilamarin mergulhou em uma sofisticação que sempre caminhou distante da região quando retratada na telinha. Pela primeira vez a plateia foi brindada com nordestinos ricos e elegantes, sem a obrigação de fazer humor em uma trama onde ele estaria absolutamente deslocado. E não deixou de ser muito bem-vinda a coragem em escalar atores consagrados em papéis distintos do normal: assim, Dira Paes brilhou com um dondoca sensual, Cassia Kis Magro chamou a atenção como uma prostituta veterana, Patrícia Pillar foi uma mãe com problemas nervosos e Murilo Benício, em uma de suas maiores atuações até hoje, roubou a cena como um vingativo marido traído. Fechando com chave de ouro, a direção escalou também os ótimos Irandhir Santos e Jesuíta Barbosa - do filme "Tatuagem" - em papéis cruciais que eles tiraram de letra. Com um elenco dessa envergadura - que deu também a Osmar Prado um papel que explorou todo o seu talento - a notícia do relacionamento entre Cauã Reymond e Ísis Valverde acabou sendo devidamente eclipsada.
Contando ainda com uma trilha sonora apropriada, bom gosto extremo em todas as suas sequências - fossem elas de sexo ou de violência física e psicológica - e uma construção dramática que deixava o espectador curioso para acompanhar o capítulo seguinte, "Amores roubados" deu uma aula de narrativa, direção e interpretação que deveria ser obrigatória para autores de TV - especialmente para veteranos arrogantes que não aceitam críticas a seus trabalhos medíocres e recheados de diálogos constrangedores. Foi uma enorme bola dentro da Globo nesse princípio de ano.
sábado, 4 de janeiro de 2014
AH, SE "O TEMPO E O VENTO" TIVESSE SIDO UMA REAL MINISSÉRIE...
Em 1985, em comemoração a seus 20 anos de existência, a Rede Globo lançou a minissérie "O tempo e o vento", baseada na primeira parte da extensa trilogia escrita por Érico Veríssimo, "O continente". Adaptada por Doc Comparato e dirigida por Paulo José em 20 capítulos, a obra deixou um legado de atuações marcantes, em um elenco escalado a dedo que casou com perfeição com os icônicos personagens de Veríssimo. O roteiro de Comparato - que contou com a colaboração de Regina Braga - aproveitou o número generoso de capítulos para desenvolver cada personagem da saga, retratado com fidelidade quase absoluta em relação à obra do autor gaúcho. Na versão anos 80 o público teve tempo para conhecer e se importar com o romance entre Ana Terra e Pedro Missioneiro, a inimizade entre os Terra Cambará e os Amaral, a história de amor entre Bibiana e Capitão Rodrigo, a ambiguidade de Luzia e a tensão existente no cerco ao sobrado liderado por Licurgo, sem questionar o fato de o elenco principal não ter dado lugar a quase nenhum ator nascido no Rio Grande do Sul - com a gloriosa exceção do próprio diretor Paulo José.
Então Jayme Monjardim anunciou sua intenção de transformar "O continente" em filme. Celebrado pela delicadeza com que cerca seus trabalhos na televisão - como as novelas "A vida da gente" e "Páginas da vida", além da minissérie "Maysa, quando fala o coração", que falava sobre a polêmica cantora que era sua mãe - Monjardim não obteve o mesmo êxito quando estreou no cinema com "Olga", uma história forte e poderosa que foi criticada principalmente por não ter conseguido fugir das armadilhas da linguagem televisiva. E não é que ele repetiu o erro? Tivesse concebido sua visão sobre a família Terra Cambará em formato de minissérie - longa, cuidadosa e com tempo suficiente para dar a mesma atenção ao visual e ao desenvolvimento das personagens - ele provavelmente teria em mãos um clássico deslumbrante. Mas deu um passo maior que a perna e esvaziou a trama com uma rapidez narrativa que confundiu o público que não teve a oportunidade de ler o livro em que se baseia - e até mesmo aquele que teve.
Se em formato de minissérie - com meros três capítulos - "O tempo e o vento" soou corrido, superficial e em alguns momentos negligente com vários elementos da prosa de Veríssimo, é de se imaginar como resulta em formato de filme. É óbvio que o desafio de condensar os dois primeiros volumes da história - que conta com três narrativas que se intercalam com uma quarta trama que encerra a primeira fase do livro - não é dos mais fáceis e aí reside o erro maior da ambição de Monjardim. Cada uma das narrativas - "Ana Terra", "Um certo Capitão Rodrigo", "A teiniaguá" e "O sobrado" - serve perfeitamente para um filme de duas horas e, nas mãos do diretor, são pulverizadas pela pressa extrema, que não permite a nenhuma delas a profundidade adequada. Sendo assim, a relação entre Ana Terra (Cleo Pires) e sua família não é explorada a contento, assim como seu romance com Pedro Missioneiro, que mais parece uma atração puramente sexual do que amor. O mesmo acontece com Capitão Rodrigo e Bibiana, cujo amor só é crível por causa das interpretações de Thiago Lacerda e Marjorie Estiano - posteriormente substituída pela gaúcha Janaína Kremer e pela monstra Fernanda Montenegro, todas brilhando sempre que o roteiro permitia. A história de Luzia (Mayana Moura), a nora de Bibiana, também sofre do mal da pressa, a ponto de seu destino ser simplesmente suprimido na narrativa. E "O sobrado" - que liga todas as outras histórias - é deixado de lado, servindo apenas de cenário para o reencontro entre a Bibiana de Montenegro com seu amado Capitão Rodrigo - e é meio estranho que, para fins dramáticos (aka explicações para a confusa audiência), ela conte toda a história de sua família para ele... incluindo a sua própria.
A fotografia de "O tempo e o vento" é magistral. O premiado Afonso Beatto é mestre, tendo em seu currículo colaboração até mesmo com Pedro Almodovar (em "Carne trêmula") e as paisagens do sul do país, bairrismo à parte, são um deleite para qualquer iluminador. A direção de arte e os figurinos também são primorosos - assim como já havia acontecido em "Olga" - e a trilha sonora épica dá o tom exato em muitos momentos (mesmo que em outros ela soe redundante). Mas é no elenco que o filme/minissérie tem seu maior trunfo. Mesclando rostos conhecidos da televisão nacional - até como forma de facilitar comercialmente o sucesso do investimento - com atores da cena gaúcha escolhidos a dedo, Monjardim teve, salvo raras exceções (como a escalação de Cleo Pires como Ana Terra, em uma escolha um tanto preguiçosa, já que sua mãe, Gloria, criou a mesma personagem com mais força e talento), um bom olho. Thiago Lacerda mostrou que sabe ser um Capitão Rodrigo tão carismático quanto o de Tarcísio Meira. Marjorie Estiano e Janaína Kremer prepararam com talento o caminho para que Fernanda Montenegro assumisse Bibiana. E Mayana Moura fez o que pode com sua Luzia - cuja história simplesmente foi limada pela Globo na reprise da série de 85, onde foi vivida por Carla Camuratti, e na edição em DVD.
Em uma história que dá às mulheres mais força e atenção do que aos homens, vários atores tiveram boas oportunidades, como os gaúchos Zé Adão Barbosa, Cris Pereira, Leonardo Machado, José Henrique Ligabue e Rafael Cardoso. Mas é uma pena que tal história, tão repleta de personagens esplêndidos e situações dramáticas emocionantes, tenha sido tratada de forma tão superficial. Um roteiro mais cuidadoso e uma direção que se decidisse entre a linguagem da tv e do cinema poderiam fazer uma extraordinária diferença. Ainda assim, melhor Érico Veríssimo do que Walcyr Carrasco.
Então Jayme Monjardim anunciou sua intenção de transformar "O continente" em filme. Celebrado pela delicadeza com que cerca seus trabalhos na televisão - como as novelas "A vida da gente" e "Páginas da vida", além da minissérie "Maysa, quando fala o coração", que falava sobre a polêmica cantora que era sua mãe - Monjardim não obteve o mesmo êxito quando estreou no cinema com "Olga", uma história forte e poderosa que foi criticada principalmente por não ter conseguido fugir das armadilhas da linguagem televisiva. E não é que ele repetiu o erro? Tivesse concebido sua visão sobre a família Terra Cambará em formato de minissérie - longa, cuidadosa e com tempo suficiente para dar a mesma atenção ao visual e ao desenvolvimento das personagens - ele provavelmente teria em mãos um clássico deslumbrante. Mas deu um passo maior que a perna e esvaziou a trama com uma rapidez narrativa que confundiu o público que não teve a oportunidade de ler o livro em que se baseia - e até mesmo aquele que teve.
Se em formato de minissérie - com meros três capítulos - "O tempo e o vento" soou corrido, superficial e em alguns momentos negligente com vários elementos da prosa de Veríssimo, é de se imaginar como resulta em formato de filme. É óbvio que o desafio de condensar os dois primeiros volumes da história - que conta com três narrativas que se intercalam com uma quarta trama que encerra a primeira fase do livro - não é dos mais fáceis e aí reside o erro maior da ambição de Monjardim. Cada uma das narrativas - "Ana Terra", "Um certo Capitão Rodrigo", "A teiniaguá" e "O sobrado" - serve perfeitamente para um filme de duas horas e, nas mãos do diretor, são pulverizadas pela pressa extrema, que não permite a nenhuma delas a profundidade adequada. Sendo assim, a relação entre Ana Terra (Cleo Pires) e sua família não é explorada a contento, assim como seu romance com Pedro Missioneiro, que mais parece uma atração puramente sexual do que amor. O mesmo acontece com Capitão Rodrigo e Bibiana, cujo amor só é crível por causa das interpretações de Thiago Lacerda e Marjorie Estiano - posteriormente substituída pela gaúcha Janaína Kremer e pela monstra Fernanda Montenegro, todas brilhando sempre que o roteiro permitia. A história de Luzia (Mayana Moura), a nora de Bibiana, também sofre do mal da pressa, a ponto de seu destino ser simplesmente suprimido na narrativa. E "O sobrado" - que liga todas as outras histórias - é deixado de lado, servindo apenas de cenário para o reencontro entre a Bibiana de Montenegro com seu amado Capitão Rodrigo - e é meio estranho que, para fins dramáticos (aka explicações para a confusa audiência), ela conte toda a história de sua família para ele... incluindo a sua própria.
A fotografia de "O tempo e o vento" é magistral. O premiado Afonso Beatto é mestre, tendo em seu currículo colaboração até mesmo com Pedro Almodovar (em "Carne trêmula") e as paisagens do sul do país, bairrismo à parte, são um deleite para qualquer iluminador. A direção de arte e os figurinos também são primorosos - assim como já havia acontecido em "Olga" - e a trilha sonora épica dá o tom exato em muitos momentos (mesmo que em outros ela soe redundante). Mas é no elenco que o filme/minissérie tem seu maior trunfo. Mesclando rostos conhecidos da televisão nacional - até como forma de facilitar comercialmente o sucesso do investimento - com atores da cena gaúcha escolhidos a dedo, Monjardim teve, salvo raras exceções (como a escalação de Cleo Pires como Ana Terra, em uma escolha um tanto preguiçosa, já que sua mãe, Gloria, criou a mesma personagem com mais força e talento), um bom olho. Thiago Lacerda mostrou que sabe ser um Capitão Rodrigo tão carismático quanto o de Tarcísio Meira. Marjorie Estiano e Janaína Kremer prepararam com talento o caminho para que Fernanda Montenegro assumisse Bibiana. E Mayana Moura fez o que pode com sua Luzia - cuja história simplesmente foi limada pela Globo na reprise da série de 85, onde foi vivida por Carla Camuratti, e na edição em DVD.
Em uma história que dá às mulheres mais força e atenção do que aos homens, vários atores tiveram boas oportunidades, como os gaúchos Zé Adão Barbosa, Cris Pereira, Leonardo Machado, José Henrique Ligabue e Rafael Cardoso. Mas é uma pena que tal história, tão repleta de personagens esplêndidos e situações dramáticas emocionantes, tenha sido tratada de forma tão superficial. Um roteiro mais cuidadoso e uma direção que se decidisse entre a linguagem da tv e do cinema poderiam fazer uma extraordinária diferença. Ainda assim, melhor Érico Veríssimo do que Walcyr Carrasco.
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
PORQUE A VOZ DO BRASIL NÃO ME REPRESENTA
Que o Brasil adora importar programas de sucesso de outros países não é novidade, haja visto a proliferação dos chamados reality shows que dominam a televisão nacional há alguns anos. Criticados ferozmente como lixo cultural, os programas, paradoxalmente, atingem a milhões de espectadores, mesmo que a essa altura dos acontecimentos todos saibam de sua tendência nada sutil de manipulação de resultados ou edições tendenciosas. O que os estudiosos da cultura pop - sim, eles existem - não compreendem, do alto de sua arrogância erudita, é que a audiência que assiste a esses programas não procuram nada além de entretenimento puro e simples. Ninguém assiste ao "Big Brother Brasil" com objetivos outros que não seja exatamente o que todo mundo faz desde que o mundo é mundo: bisbilhotar a vida alheia e meter o bedelho - só que dessa vez com a anuência de toda uma sociedade.
Mas o assunto aqui é bem outro. "The Voice Brasil" acabou nesta quinta-feira 26 de dezembro e, como era de se esperar, suscitou as mais diversas polêmicas. O formato - alterado convenientemente para permitir manobras nem sempre claras - provou-se um grande êxito em termos de audiência, principalmente com sua mudança dos domingos à tarde para as noites de quinta-feira. Mas, se desde a escolha dos jurados já havia uma certa tendência à popularização exagerada do show - com Claudia Leitte sempre imitando as juradas da versão americana e forçando uma simpatia que não tem e Daniel tentando convencer que entende dos meandros musicais que fogem de seu estilo sertanejo/romântico - a escolha do vencedor, Sam Alves, é que causou a maior discordância entre os fãs, tanto do programa quanto dos candidatos. Com torcidas fervorosas sendo anunciadas nas redes sociais, "The Voice Brasil" substituiu, por alguns meses, as rixas esportivas. De técnicos de futebol, repentinamente, os brasileiros se transmutaram em perfeitos entendedores de música.
Normal e natural. Em um país com uma cultura musical tão rica e vasta, não há quem não goste de música e, como ocorre em qualquer situação, todos se acham os donos da verdade. Mas não deixa de ser decepcionante que um programa que diz buscar "uma voz brasileira" tenha escolhido como tal um jovem cantor que passou a maior parte da vida nos EUA e tenha, como consequência natural desse histórico, referências musicais ianques, em detrimento da nacional. Sam Alves tem uma ótima voz, sim, isso não se discute. Mas sua vitória soa mais como a vitória de alguém mais "vendável" do que alguém realmente mais promissor. Em toda a sua trajetória no programa, Sam demonstrou notável domínio vocal e carisma, mas em todas as ocasiões em que precisou sair de sua zona de conforto - leia-se músicas em inglês - não conseguiu atingir mais do que o correto. E o fato que veio à público agora - de que ele foi convidado a fazer parte do programa depois de não ter sido classificado na versão americana - apenas reitera a opinião de que sua vitória pode ter sido decidida sem a interferência do público.
Não é uma questão de xenofobia, mesmo porque é incabível esse tipo de preconceito. Mas não deixa de ser decepcionante ver que um programa que poderia revelar vozes mais potentes e calorosas, capazes de reaquecer o mercado de música brasileira, tenha se deixado levar pelo mercantilismo óbvio. Tanto não é um preconceito às avessas - que exige regionalismos tolos - que nem mesmo Lucy Alves, munida de sanfona e piano em suas apresentações e portanto, mais portadora do título de "cara brasileira" merecia sagrar-se campeã, por deixar sua personalidade ser sepultada pela lembrança de outras cantoras que fazem melhor há anos o que ela tentou fazer agora - Elba Ramalho e Amelinha, apenas para citar dois exemplos. E o Brasil é tão grande que chega a soar simplismo rotular alguém como "brasileiro". A música feita no Nordeste é igual à feita no sul? Xaxado é mais brasileiro que samba? E a bossa nova, onde se encontra nisso tudo?
Rubens Daniel cantou Beatles e Coldplay, mas saiu-se igualmente bem entoando um Guilherme Arantes das antigas, o que demonstra, no mínimo, um conhecimento mais profundo da música de seu país. Dom Paulinho Lima - que Lulu Santos erroneamente eliminou em favor da péssima Luana Camarah - tinha voz de cantor de blues, mas deu show cantando Tony Tornado quando precisou (e mesmo que o próprio Tony tenha emulado o ritmo americano em seu canto, cobriu-o com um genial toque brasileiro). Alessandra Crispim lembrava o tom de Elis Regina mas tinha personalidade própria. Marcos Lessa matava a saudade de Emílio Santiago cantando Edu Lobo e Chico Buarque. Todos eles foram preteridos por um cantor derivativo que, se não estragar a carreira cantando hinos evangélicos, irá tornar-se ídolo do mesmo público que gosta de boy bands. E se existe uma prova de que os votos foram dados ao visual mais do que às vozes e personalidades dos candidatos, a votação aberta uma semana antes da final - antes mesmo da apresentação final, note-se - já demonstra que não se pode levar a sério um programa tão nitidamente desonesto e apressado.
A música brasileira é riquíssima. Seja a sofisticação simples de Tom Jobim, a poesia métrica e social de Chico Buarque e Caetano Veloso, as vozes potentes de Angela Roro, Bethânia e Ana Carolina, a suavidade de Marisa Monte, Fernanda Takai, Vanessa da Matta, Roberta Sá, os saudosos timbres de Elis, Clara Nunes e Cássia Eller. Seja o rock melódico de Cazuza e Renato Russo, o ritmo contagiante de Alcione, a sutileza de Vinícius de Moraes e o nordeste forte de Dominguinhos, Luiz Gonzaga, Zé e Elba Ramalho. O Brasil é enorme e uma fonte inesgotável de grandes talentos. Mas, em uma época em que nenhum desses nomes toca mais - ou vende mais - do que atrocidades como Anitta, Naldo e afins, não deixa de ser previsível que uma voz rejeitada nos EUA leve o título de "A voz do Brasil".
Mas o assunto aqui é bem outro. "The Voice Brasil" acabou nesta quinta-feira 26 de dezembro e, como era de se esperar, suscitou as mais diversas polêmicas. O formato - alterado convenientemente para permitir manobras nem sempre claras - provou-se um grande êxito em termos de audiência, principalmente com sua mudança dos domingos à tarde para as noites de quinta-feira. Mas, se desde a escolha dos jurados já havia uma certa tendência à popularização exagerada do show - com Claudia Leitte sempre imitando as juradas da versão americana e forçando uma simpatia que não tem e Daniel tentando convencer que entende dos meandros musicais que fogem de seu estilo sertanejo/romântico - a escolha do vencedor, Sam Alves, é que causou a maior discordância entre os fãs, tanto do programa quanto dos candidatos. Com torcidas fervorosas sendo anunciadas nas redes sociais, "The Voice Brasil" substituiu, por alguns meses, as rixas esportivas. De técnicos de futebol, repentinamente, os brasileiros se transmutaram em perfeitos entendedores de música.
Normal e natural. Em um país com uma cultura musical tão rica e vasta, não há quem não goste de música e, como ocorre em qualquer situação, todos se acham os donos da verdade. Mas não deixa de ser decepcionante que um programa que diz buscar "uma voz brasileira" tenha escolhido como tal um jovem cantor que passou a maior parte da vida nos EUA e tenha, como consequência natural desse histórico, referências musicais ianques, em detrimento da nacional. Sam Alves tem uma ótima voz, sim, isso não se discute. Mas sua vitória soa mais como a vitória de alguém mais "vendável" do que alguém realmente mais promissor. Em toda a sua trajetória no programa, Sam demonstrou notável domínio vocal e carisma, mas em todas as ocasiões em que precisou sair de sua zona de conforto - leia-se músicas em inglês - não conseguiu atingir mais do que o correto. E o fato que veio à público agora - de que ele foi convidado a fazer parte do programa depois de não ter sido classificado na versão americana - apenas reitera a opinião de que sua vitória pode ter sido decidida sem a interferência do público.
Não é uma questão de xenofobia, mesmo porque é incabível esse tipo de preconceito. Mas não deixa de ser decepcionante ver que um programa que poderia revelar vozes mais potentes e calorosas, capazes de reaquecer o mercado de música brasileira, tenha se deixado levar pelo mercantilismo óbvio. Tanto não é um preconceito às avessas - que exige regionalismos tolos - que nem mesmo Lucy Alves, munida de sanfona e piano em suas apresentações e portanto, mais portadora do título de "cara brasileira" merecia sagrar-se campeã, por deixar sua personalidade ser sepultada pela lembrança de outras cantoras que fazem melhor há anos o que ela tentou fazer agora - Elba Ramalho e Amelinha, apenas para citar dois exemplos. E o Brasil é tão grande que chega a soar simplismo rotular alguém como "brasileiro". A música feita no Nordeste é igual à feita no sul? Xaxado é mais brasileiro que samba? E a bossa nova, onde se encontra nisso tudo?
Rubens Daniel cantou Beatles e Coldplay, mas saiu-se igualmente bem entoando um Guilherme Arantes das antigas, o que demonstra, no mínimo, um conhecimento mais profundo da música de seu país. Dom Paulinho Lima - que Lulu Santos erroneamente eliminou em favor da péssima Luana Camarah - tinha voz de cantor de blues, mas deu show cantando Tony Tornado quando precisou (e mesmo que o próprio Tony tenha emulado o ritmo americano em seu canto, cobriu-o com um genial toque brasileiro). Alessandra Crispim lembrava o tom de Elis Regina mas tinha personalidade própria. Marcos Lessa matava a saudade de Emílio Santiago cantando Edu Lobo e Chico Buarque. Todos eles foram preteridos por um cantor derivativo que, se não estragar a carreira cantando hinos evangélicos, irá tornar-se ídolo do mesmo público que gosta de boy bands. E se existe uma prova de que os votos foram dados ao visual mais do que às vozes e personalidades dos candidatos, a votação aberta uma semana antes da final - antes mesmo da apresentação final, note-se - já demonstra que não se pode levar a sério um programa tão nitidamente desonesto e apressado.
A música brasileira é riquíssima. Seja a sofisticação simples de Tom Jobim, a poesia métrica e social de Chico Buarque e Caetano Veloso, as vozes potentes de Angela Roro, Bethânia e Ana Carolina, a suavidade de Marisa Monte, Fernanda Takai, Vanessa da Matta, Roberta Sá, os saudosos timbres de Elis, Clara Nunes e Cássia Eller. Seja o rock melódico de Cazuza e Renato Russo, o ritmo contagiante de Alcione, a sutileza de Vinícius de Moraes e o nordeste forte de Dominguinhos, Luiz Gonzaga, Zé e Elba Ramalho. O Brasil é enorme e uma fonte inesgotável de grandes talentos. Mas, em uma época em que nenhum desses nomes toca mais - ou vende mais - do que atrocidades como Anitta, Naldo e afins, não deixa de ser previsível que uma voz rejeitada nos EUA leve o título de "A voz do Brasil".
domingo, 22 de dezembro de 2013
TRILHAS SONORAS INESQUECÍVEIS - TOP MODEL
Em 1989 o público juvenil ainda não tinha "Malhação" e já estava órfão da série "Armação ilimitada", que, com sua linguagem inovadora e personagens de fácil identificação com sua audiência havia se tornado programa obrigatório. Preenchendo esse vácuo, a novela "Top Model" estreou em setembro proporcionando ao espectador um encontro entre o folhetim clássico capaz de agradar aos fãs do gênero e o tom leve e esperto que faltava à vasta plateia adolescente - representados respectivamente pelos autores Walter Negrão e Antonio Calmon. Calmon - diretor de filmes direcionados à juventude, como "Menino do Rio" e "Garota dourada" - fazia sua estreia como autor de novelas e não poderia ter sido mais bem-sucedido. Grande sucesso no horário das 19h, "Top Model" marcou uma geração e chegou a ser reprisada meros oito meses após seu último capítulo ter sido apresentado, numa prova inconteste de seu êxito.
A trama de "Top Model" não apresentava, a rigor, nenhuma grande novidade. A protagonista, Duda Pinheiro (Malu Mader no auge da beleza e da popularidade) era uma jovem do interior que se muda para o Rio de Janeiro acompanhada da mãe, Cleide (Suzana Faini) com o objetivo de fazer carreira como modelo. Para sua sorte, logo que chega ela assume o posto de top model da confecção do empresário Alex Kundera (Cecil Thiré), a Covery. Apaixonada pelo misterioso Lucas (Taumaturgo Ferreira, marido de Malu à época, o que justifica sua escalação) - que chegou ao Rio em busca ds seu pai desconhecido, que ele julga ser Alex - Duda vê seu romance sofrer a repressão das regras impostas por seu chefe, que não quer vê-la envolvida com nenhum homem. Enquanto isso, a trama também seguia a difícil relação entre Alex e seu irmão caçula, Gaspar (Nuno Leal Maia), que mora em uma casa à beira da praia com a atual esposa Marisa (Maria Zilda então assinando Bethlem), o cachorro Maradona e os cinco filhos - todos de mães diferentes. Bem-humorado e otimista, Gaspar é o oposto do irmão mais velho e conta sempre com a ajuda da faz-tudo Naná (Zezé Polessa em sua primeira novela, substituindo Bruna Lombardi, a primeira escolha para o papel), apaixonada por ele, e do melhor amigo, Saldanha (Evandro Mesquita), dono de um quiosque de sanduíches naturais.
Os filhos de Gaspar eram os responsáveis pela ala jovem da novela, discutindo assuntos de interesse da faixa etária a que pertenciam, como virgindade, masturbação, primeira menstruação, gravidez na adolescência e primeiro amor sem ransos moralistas ou um peso inadequado. Vividos por Marcelo Faria (Elvis), Gabriela Duarte (Olivia), Carol Machado (Jane), Henrique Farias (Ringo) e Igor Lage (Lennon), os filhos de Gaspar conquistaram o público sem maior esforço, dividindo a atenção com outras figuras de destaque na trama, como Drica Moraes, que estreava gloriosamente como a empregada Cida, que vivia um amor bandido com Paulinho (o saudoso Chiquinho Brandão) e viu seu papel aumentar no decorrer da novela e Júnior (Rodrigo Penna), filho de Alex que desafogava sua carência criando brincadeiras macabras para assustar a governanta Simone (Jacqueline Lawrence).
Outro grande sucesso de "Top Model" foi a sua trilha sonora, com canções que ilustravam com precisão as histórias contadas pelos autores - e tinha a atriz Suzy Rego (a modelo Carla da novela) na capa. Se a banda Buana 4 - que cantava a música de abertura, "Eu só quero ser feliz" - não vingou, os demais intérpretes de seu LP nacional são figurinhas carimbadas do cenário pop brasileiro. Lobão marcava presença com "Essa noite não (Marcha à ré em Paquetá)", tema de Alex e Djavan apresentava a sua inesquecível "Oceano" para embalar o romance entre Duda e Lucas. Kiko Zambianchi cantava a sua versão da beatle "Hey, Jude", tema de Gaspar. "Dizer não é dizer sim", cantada por Kid Abelha era a música-tema de Elvis e Tininha (Adriana Esteves em sua primeira novela) e "Babilônia maravilhosa", do ator/cantor Evandro Mesquita ilustrava as aventuras de seu personagem, Saldanha. O lado A era encerrrado com a instrumental "Memories", tema de Jacques (Jonas Bloch) e Lia (Denise Del Vecchio), os pais do jovem Arthur (Jonas Torres), que se via dividido entre as irmãs Olivia e Jane depois de uma cirurgia no cérebro.
O lado B da trilha nacional começava com a clássica "À francesa", de Marina Lima, tema de Duda e que hoje é indissociável da personagem. "Bobagem", na voz de Léo Jaime, era o tema de Marisa e "Independência e vida", cantada por Rita Lee, emoldurava a vida de Naná. O onipresente Fábio Jr. também emprestava seu talento à trilha, com "Vida", apresentada nas cenas da hilária Cida. O romance entre Olívia e Arthur tinha como tema a bela "Fica comigo", da banda Placa Luminosa e as descobertas sexuais de Ringo eram ilustradas pela debochada "Nega bom bom", do grupo gaúcho Cascavelettes - música que cunhou a expressão "punhetinha de verão". O mundo da moda tinha como fundo musical a instrumental "Passarela", gravada por Nova Era.
O disco internacional da novela tinha a bela Malu Mader em sua capa. Richard Marx abria o álbum com "Right here waiting", tema das cenas românticas entre Duda e Lucas. Saldanha tinha suas cenas embaladas pela banda Fine Young Cannibals e sua "Don't look back" e Gaspar teve a sorte de ter seus melhores momentos ilustrados pela clássica "Stairway to heaven", da cultuada Led Zeppelin. O romance entre Arthur e Olívia mereceu como trilha internacional a bela "I don't wanna lose you", com a poderosa Tina Turner. A banda de Danny Elfman, Oingo Boingo, cantava a música do núcleo jovem da novela, "Stay" e a paixão de Naná por Gaspar tinha como comentário musical "One more time", de Phillippe Lawrence. O lado A terminava com "Albatross", tema de Marvin (Miguel Magno), que, de homossexual convicto, se viu apaixonado por uma mulher sem as polêmicas que envolvem o tema hoje em dia.
O lado B abria com Gloria Estefan e "Don't wanna lose you", tema do triângulo amoroso Olivia/Arthur/Jane e seguia com "Wish you were here", dos Bee Gees, que era a música do romance surgido entre Lucas e Giulia (Alexandra Marzo), que atrapalhava o par central em sua busca pela felicidade. Alex e Irma (Vera Holtz) tinham como música a bela "No more boleros", de Gerard Joling e a maior fraude musical do final dos anos 80, Milli Vanilli, cantava "I'm gonna miss you", tema de Marisa. "Heaven", da banda Warrant, seguia Carla (Suzy Rego) por suas cenas, assim como "Call it love" - do desconhecido grupo Poco - era o som por trás do casamento precoce entre Elvis e Tininha. Encerrando a trilha estava "Give me action", da cantora Debbie Day, que era a canção internacional dedicada à Cida - uma prova do aumento de importância da personagem de Drica Moraes.
Reapresentada recentemente pelo Canal Viva, "Top Model" mostrou que perdeu seu frescor, mostrando um texto um tanto ingênuo e frágil. Ainda assim, permanece inesquecível nos ouvidos de seu público original.
TRILHA NACIONAL:
1. EU SÓ QUERO SER FELIZ - Buana 4
2. ESSA NOITE NÃO (Marcha à ré em Paquetá) - Lobão
3. OCEANO - Djavan
4. HEY, JUDE - Kiko Zambianchi
5. DIZER NÃO É DIZER SIM - Kid Abelha e os Abóboras Selvagens
6. BABILÔNIA MARAVILHOSA - Evandro Mesquita
7. MEMORIES - Rob Little
8. À FRANCESA - Marina
9. BOBAGEM - Léo Jaime
10. INDEPENDÊNCIA E VIDA - Rita Lee
11. VIDA - Fábio Jr.
12. FICA COMIGO - Placa Luminosa
13. NEGA BOM BOM - Os Cascavelettes
14. PASSARELA - Nova Era
TRILHA INTERNACIONAL:
1. RIGHT HERE WAITING - Richard Marx
2. DON'T LOOK BACK - Fine Young Cannibals
3. STAIRWAY TO HEAVEN - Led Zeppelin
4. I DON'T WANNA LOSE YOU - Tina Turner
5. STAY - Oingo Boingo
6. ONE MORE TIME - Phillipe Lawrence
7. ALBATROSS - Vikings
8. DON'T WANNA LOSE YOU - Gloria Estefan
9. WISH YOU WERE HERE - Bee Gees
10. NO MORE BOLEROS - Gerard Jolling
11. I'M GONNA MISS YOU - Milli Vanilli
12. HEAVEN - Warrant
13. CALL IT LOVE - Poco
14. GIVE ME ACTION - Debbie Day
A trama de "Top Model" não apresentava, a rigor, nenhuma grande novidade. A protagonista, Duda Pinheiro (Malu Mader no auge da beleza e da popularidade) era uma jovem do interior que se muda para o Rio de Janeiro acompanhada da mãe, Cleide (Suzana Faini) com o objetivo de fazer carreira como modelo. Para sua sorte, logo que chega ela assume o posto de top model da confecção do empresário Alex Kundera (Cecil Thiré), a Covery. Apaixonada pelo misterioso Lucas (Taumaturgo Ferreira, marido de Malu à época, o que justifica sua escalação) - que chegou ao Rio em busca ds seu pai desconhecido, que ele julga ser Alex - Duda vê seu romance sofrer a repressão das regras impostas por seu chefe, que não quer vê-la envolvida com nenhum homem. Enquanto isso, a trama também seguia a difícil relação entre Alex e seu irmão caçula, Gaspar (Nuno Leal Maia), que mora em uma casa à beira da praia com a atual esposa Marisa (Maria Zilda então assinando Bethlem), o cachorro Maradona e os cinco filhos - todos de mães diferentes. Bem-humorado e otimista, Gaspar é o oposto do irmão mais velho e conta sempre com a ajuda da faz-tudo Naná (Zezé Polessa em sua primeira novela, substituindo Bruna Lombardi, a primeira escolha para o papel), apaixonada por ele, e do melhor amigo, Saldanha (Evandro Mesquita), dono de um quiosque de sanduíches naturais.
Os filhos de Gaspar eram os responsáveis pela ala jovem da novela, discutindo assuntos de interesse da faixa etária a que pertenciam, como virgindade, masturbação, primeira menstruação, gravidez na adolescência e primeiro amor sem ransos moralistas ou um peso inadequado. Vividos por Marcelo Faria (Elvis), Gabriela Duarte (Olivia), Carol Machado (Jane), Henrique Farias (Ringo) e Igor Lage (Lennon), os filhos de Gaspar conquistaram o público sem maior esforço, dividindo a atenção com outras figuras de destaque na trama, como Drica Moraes, que estreava gloriosamente como a empregada Cida, que vivia um amor bandido com Paulinho (o saudoso Chiquinho Brandão) e viu seu papel aumentar no decorrer da novela e Júnior (Rodrigo Penna), filho de Alex que desafogava sua carência criando brincadeiras macabras para assustar a governanta Simone (Jacqueline Lawrence).
Outro grande sucesso de "Top Model" foi a sua trilha sonora, com canções que ilustravam com precisão as histórias contadas pelos autores - e tinha a atriz Suzy Rego (a modelo Carla da novela) na capa. Se a banda Buana 4 - que cantava a música de abertura, "Eu só quero ser feliz" - não vingou, os demais intérpretes de seu LP nacional são figurinhas carimbadas do cenário pop brasileiro. Lobão marcava presença com "Essa noite não (Marcha à ré em Paquetá)", tema de Alex e Djavan apresentava a sua inesquecível "Oceano" para embalar o romance entre Duda e Lucas. Kiko Zambianchi cantava a sua versão da beatle "Hey, Jude", tema de Gaspar. "Dizer não é dizer sim", cantada por Kid Abelha era a música-tema de Elvis e Tininha (Adriana Esteves em sua primeira novela) e "Babilônia maravilhosa", do ator/cantor Evandro Mesquita ilustrava as aventuras de seu personagem, Saldanha. O lado A era encerrrado com a instrumental "Memories", tema de Jacques (Jonas Bloch) e Lia (Denise Del Vecchio), os pais do jovem Arthur (Jonas Torres), que se via dividido entre as irmãs Olivia e Jane depois de uma cirurgia no cérebro.
O lado B da trilha nacional começava com a clássica "À francesa", de Marina Lima, tema de Duda e que hoje é indissociável da personagem. "Bobagem", na voz de Léo Jaime, era o tema de Marisa e "Independência e vida", cantada por Rita Lee, emoldurava a vida de Naná. O onipresente Fábio Jr. também emprestava seu talento à trilha, com "Vida", apresentada nas cenas da hilária Cida. O romance entre Olívia e Arthur tinha como tema a bela "Fica comigo", da banda Placa Luminosa e as descobertas sexuais de Ringo eram ilustradas pela debochada "Nega bom bom", do grupo gaúcho Cascavelettes - música que cunhou a expressão "punhetinha de verão". O mundo da moda tinha como fundo musical a instrumental "Passarela", gravada por Nova Era.
O disco internacional da novela tinha a bela Malu Mader em sua capa. Richard Marx abria o álbum com "Right here waiting", tema das cenas românticas entre Duda e Lucas. Saldanha tinha suas cenas embaladas pela banda Fine Young Cannibals e sua "Don't look back" e Gaspar teve a sorte de ter seus melhores momentos ilustrados pela clássica "Stairway to heaven", da cultuada Led Zeppelin. O romance entre Arthur e Olívia mereceu como trilha internacional a bela "I don't wanna lose you", com a poderosa Tina Turner. A banda de Danny Elfman, Oingo Boingo, cantava a música do núcleo jovem da novela, "Stay" e a paixão de Naná por Gaspar tinha como comentário musical "One more time", de Phillippe Lawrence. O lado A terminava com "Albatross", tema de Marvin (Miguel Magno), que, de homossexual convicto, se viu apaixonado por uma mulher sem as polêmicas que envolvem o tema hoje em dia.
O lado B abria com Gloria Estefan e "Don't wanna lose you", tema do triângulo amoroso Olivia/Arthur/Jane e seguia com "Wish you were here", dos Bee Gees, que era a música do romance surgido entre Lucas e Giulia (Alexandra Marzo), que atrapalhava o par central em sua busca pela felicidade. Alex e Irma (Vera Holtz) tinham como música a bela "No more boleros", de Gerard Joling e a maior fraude musical do final dos anos 80, Milli Vanilli, cantava "I'm gonna miss you", tema de Marisa. "Heaven", da banda Warrant, seguia Carla (Suzy Rego) por suas cenas, assim como "Call it love" - do desconhecido grupo Poco - era o som por trás do casamento precoce entre Elvis e Tininha. Encerrando a trilha estava "Give me action", da cantora Debbie Day, que era a canção internacional dedicada à Cida - uma prova do aumento de importância da personagem de Drica Moraes.
Reapresentada recentemente pelo Canal Viva, "Top Model" mostrou que perdeu seu frescor, mostrando um texto um tanto ingênuo e frágil. Ainda assim, permanece inesquecível nos ouvidos de seu público original.
TRILHA NACIONAL:
1. EU SÓ QUERO SER FELIZ - Buana 4
2. ESSA NOITE NÃO (Marcha à ré em Paquetá) - Lobão
3. OCEANO - Djavan
4. HEY, JUDE - Kiko Zambianchi
5. DIZER NÃO É DIZER SIM - Kid Abelha e os Abóboras Selvagens
6. BABILÔNIA MARAVILHOSA - Evandro Mesquita
7. MEMORIES - Rob Little
8. À FRANCESA - Marina
9. BOBAGEM - Léo Jaime
10. INDEPENDÊNCIA E VIDA - Rita Lee
11. VIDA - Fábio Jr.
12. FICA COMIGO - Placa Luminosa
13. NEGA BOM BOM - Os Cascavelettes
14. PASSARELA - Nova Era
TRILHA INTERNACIONAL:
1. RIGHT HERE WAITING - Richard Marx
2. DON'T LOOK BACK - Fine Young Cannibals
3. STAIRWAY TO HEAVEN - Led Zeppelin
4. I DON'T WANNA LOSE YOU - Tina Turner
5. STAY - Oingo Boingo
6. ONE MORE TIME - Phillipe Lawrence
7. ALBATROSS - Vikings
8. DON'T WANNA LOSE YOU - Gloria Estefan
9. WISH YOU WERE HERE - Bee Gees
10. NO MORE BOLEROS - Gerard Jolling
11. I'M GONNA MISS YOU - Milli Vanilli
12. HEAVEN - Warrant
13. CALL IT LOVE - Poco
14. GIVE ME ACTION - Debbie Day
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
"JÓIA RARA" É UMA PEDRA PRECIOSA NA PROGRAMAÇÃO
Em uma época em que a tentativa de inovar resultou em um produto intragável - a chata e insossa "Além do horizonte" - e que o horário nobre é preenchido por uma sucessão de diálogos risíveis (no mau sentido) e personagens mal delineados - com Walcyr Carrasco emulando de forma vergonhosa, em "Amor à vida" as tramas mexicanas que não funcionam fora do SBT - não deixa de ser um oásis assistir-se à novela das 18h, a encantadora "Jóia rara". Escrita pela dupla Thelma Guedes e Duca Rachid - que conquistaram o público com a criativa "Cordel encantado", de 2011 - a trama enfrenta problemas de audiência (em parte por causa do horário de verão em parte porque muitas vezes o público não compra a ideia, como aconteceu com a encantadora "Lado a lado", no ano passado), mas é infinitamente mais competente do que a novela das 21h - em todos os quesitos.
A bem da verdade, tudo funciona em "Jóia rara", desde a trama central até as paralelas, que caminham fluentemente não apenas para enrolar e passar o tempo - como o faz Carrasco em sua novela - mas porque tem vida própria e estão organicamente ligadas aos protagonistas. Até mesmo os núcleos cômicos, que normalmente soam falsos quando não existe inteligência para mantê-los, são engraçados e funcionais - e muito desse sucesso vem do equilíbrio entre texto, elenco talentoso e direção firme. Aliás, a direção pode ser considerada um dos pontos mais altos da novela de Guedes e Rachid: assim como o fez em "Avenida Brasil", Amora Mautner conduz seus atores no tênue limite entre o naturalismo da novela de João Emanuel Carneiro e o classicismo que o texto romântico de "Jóia rara" propõe, além de ser a principal responsável pelo extremo bom gosto visual da novela.
A fotografia de "Jóia rara" é espetacular. Desde os primeiros capítulos, no Nepal, até os apresentados recentemente, passados no Rio de Janeiro pós II Guerra, o visual criado pela produção é deslumbrante, fugindo do tradicional tom neutro que, logicamente, não combinaria com a mescla de romantismo e misticismo que circunda a história central. O cuidado com os detalhes enche os olhos da audiência: os figurinos e os cenários seguem o padrão de qualidade global, mas sente-se nitidamente que a obsessão com a reconstituição de época correta não afeta em nada o cuidado com a emoção - que transborda sem parecer piegas no texto excelente das autoras, que não abdicam de nenhuma das regras básicas do folhetim para contar uma história humana, simples e recheada de personagens críveis interpretados por um elenco de ouro.
Como casal central, Bruno Gagliasso e Bianca Bin funcionam às mil maravilhas. Bin, inclusive, deixa pra trás a péssima impressão de sua atuação como a vilã Carolina do remake desastroso de "Guerra dos sexos", fazendo de sua Amelinha uma mulher forte e determinada como deve ser uma boa mocinha de folhetim. Os vilões, Carmo Dalla Vecchia e José de Abreu não deixam a desejar - se o segundo não precisa provar mais nada a ninguém (especialmente depois de seu genial Nilo, de "Avenida Brasil"), o primeiro dá suas escorregadas nas caras e bocas, mas de certa forma elas cabem na sua construção do recalcado Manfred, que encontra na fantástica Ana Lúcia Torre uma comparsa à altura. Os demais pares românticos também merecem destaque: Mariana Ximenes brilha com sua Aurora Lincoln apaixonada pelo veterano de guerra paraplégico Davi (Leandro Lima), Nathalia Dill encontrou o tom certo de sua Silvia, vilã apaixonada pelo filho de seu desafeto (Rafael Cardoso) e até mesmo o romance proibido entre o monge Sonan (Caio Blat) e a desinibida Matilde (Fabíula Nascimento, ótima) convence sem precisar nem mesmo de um beijo. Ao redor de todas essas histórias de amor - essenciais a uma boa novela - circulam personagens trágicos (como Gaia, a sobrevivente do Holocausto vivida por Ana Cecília Costa que retorna ao Brasil e encontra o marido casado com outra mulher) e engraçados (como Joel, o empresário de Aurora, vivido com graça por Marcelo Médici). Os destaques são inúmeros, mas é impossível não dar a devida atenção à pequena Mel Maia.
Revelada em "Avenida Brasil", Mel é um destaque à parte em "Jóia rara": no papel crucial de Pérola, a menina que é a reencarnação de um monge budista dá um show de talento e naturalidade, fazendo de sua personagem algo encantador. Por causa dela - e da atmosfera bem criada por texto e direção - o tom místico da história soa verdadeiro: em nenhum momento se duvida dos poderes de Pérola de curar as pessoas que ama ou ter premonições - e mesmo quem não se deixa seduzir por esse tom religioso tem muito mais a admirar, inclusive a excepcional trilha sonora, que resgata grandes nomes da MPB em gravações originais. Em quantos programas de hoje você consegue ouvir Elis, Caetano, Gil, Bethânia, Milton Nascimento, Chico Buarque e Zizi Possi?
"Jóia rara" é uma novela. Simples assim. Tem o bem e o mal definidos, núcleo cômico funcional, histórias de amor e um pano de fundo histórico que não invade o que a dramaturgia tem de bom. Maniqueísta? Talvez, mas nada paga a chance de se torcer claramente por um final feliz. Aprenda, Walcyr Carrasco.
A bem da verdade, tudo funciona em "Jóia rara", desde a trama central até as paralelas, que caminham fluentemente não apenas para enrolar e passar o tempo - como o faz Carrasco em sua novela - mas porque tem vida própria e estão organicamente ligadas aos protagonistas. Até mesmo os núcleos cômicos, que normalmente soam falsos quando não existe inteligência para mantê-los, são engraçados e funcionais - e muito desse sucesso vem do equilíbrio entre texto, elenco talentoso e direção firme. Aliás, a direção pode ser considerada um dos pontos mais altos da novela de Guedes e Rachid: assim como o fez em "Avenida Brasil", Amora Mautner conduz seus atores no tênue limite entre o naturalismo da novela de João Emanuel Carneiro e o classicismo que o texto romântico de "Jóia rara" propõe, além de ser a principal responsável pelo extremo bom gosto visual da novela.
A fotografia de "Jóia rara" é espetacular. Desde os primeiros capítulos, no Nepal, até os apresentados recentemente, passados no Rio de Janeiro pós II Guerra, o visual criado pela produção é deslumbrante, fugindo do tradicional tom neutro que, logicamente, não combinaria com a mescla de romantismo e misticismo que circunda a história central. O cuidado com os detalhes enche os olhos da audiência: os figurinos e os cenários seguem o padrão de qualidade global, mas sente-se nitidamente que a obsessão com a reconstituição de época correta não afeta em nada o cuidado com a emoção - que transborda sem parecer piegas no texto excelente das autoras, que não abdicam de nenhuma das regras básicas do folhetim para contar uma história humana, simples e recheada de personagens críveis interpretados por um elenco de ouro.
Como casal central, Bruno Gagliasso e Bianca Bin funcionam às mil maravilhas. Bin, inclusive, deixa pra trás a péssima impressão de sua atuação como a vilã Carolina do remake desastroso de "Guerra dos sexos", fazendo de sua Amelinha uma mulher forte e determinada como deve ser uma boa mocinha de folhetim. Os vilões, Carmo Dalla Vecchia e José de Abreu não deixam a desejar - se o segundo não precisa provar mais nada a ninguém (especialmente depois de seu genial Nilo, de "Avenida Brasil"), o primeiro dá suas escorregadas nas caras e bocas, mas de certa forma elas cabem na sua construção do recalcado Manfred, que encontra na fantástica Ana Lúcia Torre uma comparsa à altura. Os demais pares românticos também merecem destaque: Mariana Ximenes brilha com sua Aurora Lincoln apaixonada pelo veterano de guerra paraplégico Davi (Leandro Lima), Nathalia Dill encontrou o tom certo de sua Silvia, vilã apaixonada pelo filho de seu desafeto (Rafael Cardoso) e até mesmo o romance proibido entre o monge Sonan (Caio Blat) e a desinibida Matilde (Fabíula Nascimento, ótima) convence sem precisar nem mesmo de um beijo. Ao redor de todas essas histórias de amor - essenciais a uma boa novela - circulam personagens trágicos (como Gaia, a sobrevivente do Holocausto vivida por Ana Cecília Costa que retorna ao Brasil e encontra o marido casado com outra mulher) e engraçados (como Joel, o empresário de Aurora, vivido com graça por Marcelo Médici). Os destaques são inúmeros, mas é impossível não dar a devida atenção à pequena Mel Maia.
Revelada em "Avenida Brasil", Mel é um destaque à parte em "Jóia rara": no papel crucial de Pérola, a menina que é a reencarnação de um monge budista dá um show de talento e naturalidade, fazendo de sua personagem algo encantador. Por causa dela - e da atmosfera bem criada por texto e direção - o tom místico da história soa verdadeiro: em nenhum momento se duvida dos poderes de Pérola de curar as pessoas que ama ou ter premonições - e mesmo quem não se deixa seduzir por esse tom religioso tem muito mais a admirar, inclusive a excepcional trilha sonora, que resgata grandes nomes da MPB em gravações originais. Em quantos programas de hoje você consegue ouvir Elis, Caetano, Gil, Bethânia, Milton Nascimento, Chico Buarque e Zizi Possi?
"Jóia rara" é uma novela. Simples assim. Tem o bem e o mal definidos, núcleo cômico funcional, histórias de amor e um pano de fundo histórico que não invade o que a dramaturgia tem de bom. Maniqueísta? Talvez, mas nada paga a chance de se torcer claramente por um final feliz. Aprenda, Walcyr Carrasco.
Assinar:
Postagens (Atom)






























