Mostrando postagens com marcador NOVELAS. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador NOVELAS. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 8 de novembro de 2016

"HAJA CORAÇÃO" - MUITOS ALTOS E POUCOS BAIXOS


A Globo tem um histórico complicado em relação aos remakes de suas novelas. Para cada caso de sucesso - como "Ti-ti-ti", que Maria Adelaide Amaral reescreveu em 2010 mantendo o frescor e lhe conferindo personalidade própria e "O rebu", que atualizou a obra de Jorge Andrade com inteligência e ritmo - existe uma lista de produções constrangedoras, como "Irmãos Coragem" (95), "Pecado capital" (98) e "Saramandaia" (13), que, por motivos os mais variados, não conseguiram manter a qualidade dos originais e decepcionaram os noveleiros de plantão. Portanto, quando foi anunciado que a emissora estava em vias de regravar "Sassaricando", escrita por Sílvio de Abreu em 87/88, muita gente colocou as barbas de molho. Primeiro porque a novela original não foi um sucesso tão retumbante assim - apesar de legar à teledramaturgia algumas personagens icônicas, como Tancinha e Fedora Abdala e jogar suas intérpretes Cláudia Raia e Cristina Pereira direto no saudoso "TV Pirata", ao lado do colega de elenco Diogo Vilela. Segundo porque o autor escalado para a missão, Daniel Ortiz, só tinha no currículo uma única novela como titular, a agradável "Alto astral" (14). E terceiro porque a última vez em que uma trama de Abreu tentou voltar às telinhas o resultado foi a desastrosa "Guerra dos sexos" (12), que simplesmente ignorou as mudanças ocorridas nas três décadas que separavam as duas versões e tornou-se um fiasco vergonhoso.

A notícia de que Ortiz não escreveria um remake normal, e sim faria uma espécie de reinvenção da trama não ajudou muito. Era uma decisão questionável, mas a estreia da novela, em maio, deixou claro que foi a mais apropriada. Ao manter algumas ideias centrais intactas e modificar outras, ao alterar a personalidade de alguns personagens e acrescentar outros (além de roubar a Shirley interpretada com graça por Sabrina Petraglia de outra novela de Sílvio de Abreu, a polêmica "Torre de Babel", de 1998), Daniel Ortiz conseguiu o que parecia impossível: melhorar a novela original, limando da sinopse uma trama policial desnecessária (que envolvia um marido misterioso para a protagonista Rebeca, vivida então por Tônia Carrero), enfatizando seu humor e espalhando elementos clássicos de folhetins (segredos, amores proibidos, vilões cruéis) por uma agradável temporada de seis meses que jamais esbarrou nas temidas barrigas e ainda proporcionou bons momentos a quem buscava um entretenimento leve e despretensioso em frente à TV.  Apesar do último capítulo sofrível - apressado, com alguns buracos e um desfecho romântico que desagradou à muita gente - "Haja coração" termina sua trajetória com um crédito considerável e que mostra que seu autor, equilibrando com sabedoria tudo que se espera de uma telenovela e algumas novidades que conquistam um público menos paciente, tem um futuro promissor.

No final, entre mortos e feridos salvaram-se (quase) todos. Entre altos (muitos) e baixos (poucos), "Haja coração" divertiu e prendeu a atenção dos fãs de uma boa novela, que ofereceu tudo que algo do gênero não pode se furtar a oferecer: romance, drama, humor e uma pequena dose de suspense. Vamos agora destacar o que vai deixar saudades e o que já vai tarde.

EM ALTA:

MARIANA XIMENES: Linda e talentosa, Ximenes fez o que parecia impossivel: reviver um dos personagens mais marcantes da carreira de Cláudia Raia, a sexy feirante Tancinha. Sem exagerar nos trejeitos - o que poderia lhe empurrar para uma caricatura pouco apropriada para nossos tempos - a atriz já mostrou nos capítulos iniciais que não estava para brincadeira, e conquistou o público com seu carisma inegável. Com uma participação especial como ela mesma, a própria Cláudia Raia deu a bênção à nova versão de sua inesquecível personagem.





TATÁ WERNECK & GABRIEL GODOY: Outro desafio cumprido com louvor, graças à química impecável entre seus dois atores. Tatá saiu-se bem até mesmo em cenas dramáticas, e Gabriel - que trabalhou com o autor em "Alto astral", como Afeganistão - se revelou um dos nomes mais quentes da nova geração. Interpretados por Cristina Pereira (outra que também aprovou a substituta contracenando com ela) e Diogo Vilela em 1987, Fedora Abdala e Leonardo Raposo foram responsáveis por alguns dos momentos mais engraçados da trama e certamente serão recompensados com a memória do telespectador.


SABRINA PETRAGLIA & MARCOS PITOMBO: A maior trama romântica de "Haja coração" surpreendeu até a própria emissora, que viu o quadrilátero amoroso Tancinha-Beto-Tamara-Apolo ser eclipsado por uma história de amor pura e nos moldes de Cinderela, com direito até mesmo a armações malignas de inimigas cruéis e prepotentes. Importada de "Torre de Babel", Shirley conquistou o público com seu coração puro e altruísmo à toda prova - e seu príncipe encantado também não fez por menos, mostrando-se um cavalheiro até as últimas consequências.

REFERÊNCIAS A OUTRAS TRAMAS: Como bom fã de novelas, Daniel Ortiz recheou sua história com referências bastante divertidas a outras obras da Globo. Exemplos? Quando Safira (Cristina Pereira) anuncia sua iminente chegada ao Brasil, os closes em seus olhos e boca enquanto fala ao telefone remetem à vilã-mor da dramaturgia nacional, Odete Roitman (Beatriz Segall), de "Vale tudo". Mais um? O grupo de fãs de BBB que confundem Rebeca (interpretada por Malu Mader) com a própria atriz, para desespero de sua amiga Leonora (Ellen Roche, ótima), eliminada do reality show antes mesmo de entrar na casa. Lances assim, mais momentos de metalinguagem ("Esse bordão é de outro núcleo!", brada a autoritária Teodora (Grace Gianoukas) em determinado momento) surpreendiam o espectador e serviam como motivo de riso inteligente.

NOVOS ROSTOS: Toda novela tem sua cota de novos atores, como forma de renovar o elenco para futuras produções. "Haja coração" não fugiu à regra, apresentando novos rostos ao lado de veteranos consagrados, como Alexandre Borges, Malu Mader e Marisa Orth (sensacional em registro dramático). Destaque para o já citado Gabriel Godoy, o excelente Paulo Tiefenthaler (como o hipocondríaco Rodrigo), o pouco aproveitado Johnnas Oliva (como o rejeitado Enéas) e Renata Augusta, dona de ótimos diálogos como a doméstica Dinalda. São nomes que o público espera rever em breve.

EM BAIXA:

MALVINO SALVADOR & JAYME MATARAZZO: Dois dos piores atores já escalados para novelas globais, foram responsáveis por alguns dos momentos mais constrangedores da trama. Malvino construiu um Apolo absolutamente inexpressivo (se bem que no original o papel era de Alexandre Frota, ou seja...) e repleto dos trejeitos irritantes que vem mostrando em toda a sua carreira. Suas cenas eram quase intragáveis - em especial ao lado de uma Cléo Pires particularmente sem sal. E Matarazzo, logicamente, só está onde está por puro e simples nepotismo. Basta dar uma olhada em seu "desempenho" em "Cheias de charme", reprisada à tarde, para ver que ele é sempre o mesmo chato canastrão. E contracenar com a fraquinha Agatha Moreira não ajudou em nada.

O FINAL ABRUPTO: Tudo parecia estar em perfeito controle. Daniel Ortiz conseguiu dar conta de todas as subtramas que criou, resolvendo-as aos poucos, sem deixar tudo para o final, como normalmente acontece em outras produções. E então, nos últimos capítulos, algo desandou. Fatos importantes - como o julgamento e a cirurgia de Shirley e o desfecho do reencontro entre Francesca (Marisa Orth) e Guido (Werner Schunemann) - foram praticamente ignorados ou tratados sem a devida importância. Um pequeno tropeço, mas que não chega a apagar as qualidades dos meses anteriores - e mais um aviso à Globo para que se preocupe um pouco mais com os finais de suas novelas.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

"SETE VIDAS": UMA NOVELA PARA DEIXAR SAUDADES

Aqueles telespectadores que costumam reclamar que as novelas de hoje em dia perderam a capacidade de prender o público, que substituíram a emoção pela polêmica e que não dão atenção à qualidade do texto e dos personagens, preferindo sacrificar a coerência interna da história em favor da audiência, deveriam ter deixado o discurso pronto de lado e prestado atenção em "Sete vidas", a recém encerrada atração das 18h, escrita por Lícia Manzo e sua equipe de colaboradores: sem tentar inventar a roda, Manzo - autora também da igualmente humanista "A vida da gente" (11) - criou uma trama inteligente, forte e dotada de uma sensibilidade única, que a destacou como uma das mais interessantes produções globais dos últimos anos. Mais curta do que a média das novelas da emissora - acabou com 107 capítulos, o que a poupou da temida "barriga" e deixou a sensação de que vai deixar muita saudade - "Sete vidas" manteve os ingredientes clássicos do gênero (histórias de amor, relações familiares, traumas do passado), mas lançou sobre eles um novo viés, mais moderno e adequado à realidade. Retratando os diversos tipos de núcleos familiares - e revestindo todos eles com um olhar carinhoso mas nunca condescendente - Manzo contou uma história (ou várias histórias, dependendo do ponto de vista) sobre aquilo que todo mundo vive no cotidiano: o amor, a amizade e sobre, parafraseando Caetano, a dor e a delícia de se ser o que é.

Seguindo um estilo consagrado por Manoel Carlos - que há muito tempo perdeu a mão e não consegue repetir o sucesso de um filão que ele mesmo criou - Lícia Manzo não apela para tramas folhetinescas que envolvem vilões vingativos, disputas aborrecidas por presidências de empresas ou assassinatos misteriosos para garantir sua audiência. Sua matéria-prima são os sentimentos, as dubiedades de cada personagem, seus dramas pessoais, seu sofrimento em relação a problemas banais como pagar as contas, conquistar o amor da pessoa amada, lidar com o abandono, buscar a realização profissional e fazer as pazes com o passado, entre outras encruzilhadas capazes de despertar a identificação de quem quer que seja. Seu trabalho não se destaca por ganchos engenhosos ao final de cada capítulo, e sim pela delicadeza com que costura as teias que ligam seus personagens - todos, sem exceção, construídos com consistência e verossimilhança. Os desfechos que cria para seus dilemas não apelam para barracos constantes - quando existem, são do tamanho apropriado - e sim para conversas longas e bem fundamentadas (felizmente amparadas por um elenco que, aleluia, é formado por atores e não por modelos escalados a despeito de sua incapacidade dramática). Para alguns, pode soar chato e tedioso. Para outros - a imensa maioria que louvou a novela a cada capítulo via redes sociais e clama com urgência a escalação da autora para o horário nobre - foi um oásis de inteligência e poesia.

A trama simples e genialmente bem moldada por Manzo - um homem incapaz de criar raízes emocionais devido a um trauma familiar do passado se torna o responsável involuntário pela união de sete filhos que gerou com uma série de doações a um banco de sêmen, no passado - encontrou na direção minimalista de Jayme Monjardim a parceria ideal. Sem o peso do horário das nove sobre os ombros, Monjardim pode dar à novela um ar menos ambicioso, que combinou com perfeição a trilha sonora de qualidade, a abertura despretensiosa, a fotografia ensolarada (ou, em alguns casos, gélida como um iceberg) e a forma de lidar com as subtramas - todas com um grau de interesse forte o bastante para sustentar-se independentemente da história central. Durante os quatro meses em que esteve no ar, "Sete vidas" discutiu, entre outros assuntos, a homossexualidade (sem alarde e de maneira respeitosa com o público e com os personagens), anorexia, a exploração filial, casamentos em crise, alienação parental, adoção, amor na terceira idade e doação de órgãos, sem que transformasse essas discussões em tribunais inquisitórios didáticos e/ou enfadonhos. Era comum ao telespectador ver-se, por exemplo, diante de uma longa conversa sobre as dificuldades de um relacionamento que não chegasse a nenhum resultado prático ou um diálogo a respeito de um livro ou de um filme (que não, não eram autoajuda plantada na trama por jabá ou uma comédia infeliz produzida pela Globo Filmes, mas sim obras de autores como Ian McEwan e Fernando Pessoa e maravilhas como o iraniano "A separação" e os filmes de Chaplin). Assim era o texto da autora: realista, mas poético. Inteligente e nunca maniqueísta.

E tal texto, o sonho de qualquer ator, encontrou em seu elenco os atores dos sonhos de sua autora. Com raras exceções (Jayme Matarazzo ainda bem fraco e Fernando Alves Pinto incapaz de transmitir qualquer tipo de emoção), os personagens de "Sete vidas" encontraram intérpretes à altura do desafio de refletir na telinha as emoções reais de gente como a gente. Deborah Bloch - cada vez melhor atriz e linda - segurou firme o papel de protagonista feminina, dando à sua Lígia a força e determinação necessárias para lidar com a gangorra emocional de seu par, o verdadeiro centro da narrativa, Miguel (Domingos Montagner em papel ingrato mas de grande coerência psicológica). Isabelle Drummond mostrou mais uma vez que é uma aposta certa da Globo na nova geração, fazendo de sua Júlia uma heroína romântica sem o ranço passivo das produções do passado. Regina Duarte fez uma volta triunfal à televisão como Ester, uma mãe corajosa e compreensiva que, após a morte da esposa, volta ao Brasil e precisa lidar com as personalidades conflitantes dos filhos gêmeos, o reservado Luís (Thiago Rodrigues em seu melhor trabalho até agora) e Laila (Maria Eduarda Carvalho, um dos maiores destaques da novela). Além disso, foi bom ver a chance dada a atores novos e talentosos como Ghilherme Lobo - do filme "Hoje eu quero voltar sozinho" - como o rebelde Bernardo, Letícia Colin, convincente como a hesitante modelo Elisa - que viu sua trama sobre anorexia ser boicotada pela emissora - e o argentino Michel Noher, que repetiu em cena a relação pai/filho com o ator Jean-Pierre Noher. Dentre tantos destaques, eles se mostraram preparados para novos trabalhos - e é sempre um prazer ver Jesuíta Barbosa em cena, mesmo que apenas em flashbacks.

Alguns críticos reclamaram do excesso de voz feminina na trama, em detrimento do desenvolvimento dos personagens masculinos. Bobagem. A opção de Lícia Manzo em contar sua história sob o ponto de vista das mulheres - de classes sociais, graus de instrução e anseios diversos - é válida e inteligente: o público feminino ainda é o mais fiel ao gênero e o tom da narrativa, leve e delicado, é muito mais adequado a ele. Além do mais, é uma falácia acusar a autora de não dar importância aos homens da trama, uma vez que tudo tem origem nos traumas de Miguel - um personagem riquíssimo em seu comportamento errático - e que cinco de seus filhos são homens - todos com uma cota bem saudável de problemas, com a possível exceção do pequeno e encantador Joaquim, único fruto de uma relação estável. Talvez esses detratores estejam tão acostumados com personagens mal-escritos que não conseguem enxergar uma pérola nem diante dos olhos. Sorte daqueles que, como os órfãos de "Sete vidas", ainda tem essa percepção.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

"BABILÔNIA" É A MELHOR NOVELA DA GLOBO EM ANOS

Tendo ultrapassado a barreira dos trinta primeiros capítulos, a novela "Babilônia" - que já estreou sob uma saraivada de pedras atiradas por políticos oportunistas, pastores evangélicos hipócritas e preconceituosos de todos os formatos (não por acaso todos retratados sob viés crítico no roteiro) - ainda não atingiu os índices de audiência esperados pela Rede Globo que, burramente, já providenciou grupos de discussão (também conhecidos como reuniões para desocupados cuja referência em qualidade dramatúrgica é "O direito de nascer") para alterar a trama prevista na sinopse dos autores. Isso quer dizer, em poucas palavras, que boa parte do que faz a novela ser tão boa está com os dias contados, e o que poderia ser um marco contra a intolerância e o retrocesso social periga tornar-se apenas mais uma novela das 21h. Para sorte de todos os telespectadores de bom gosto, porém, existe o consolo de que a pior novela de Gilberto Braga (o que não é o caso aqui) é mil vezes superior à melhor de Aguinaldo Silva - e é sintomático que a antecessora de "Babilônia", a tenebrosa "Império", tenha sido escrita por ele, que em bons tempos, colaborou com Braga na melhor novela de todos os tempos, a insuperável "Vale tudo", também co-escrita por Leonor Bassères.

Em seu primeiro mês no ar, "Babilônia" já foi acusada de tudo pelos detratores, desde tentar destruir a tradicional família brasileira - aquela mesma que nem se abalou quando um filho matou o pai pelas costas na novela anterior ou que achava normal o troca-troca de casais de "Amor à vida", atrocidade cometida por Walcyr Carrasco pouco antes - até de ter uma mocinha chata - como se a Morena de "Salve Jorge" e a Paloma da novela de Carrasco fossem exemplos de protagonistas empolgantes (e vale lembrar que Nanda Costa e Paolla Oliveira, suas intérpretes, não chegam aos pés do talento de Camila Pitanga, a heroína da atual produção global. O que esses críticos talvez não percebam - ou não queiram perceber, já que muitas vezes a ideologia política os cega às qualidades artísticas dos produtos globais - é que, em termos dramatúrgicos, a trama escrita por Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga é a mais inteligente a surgir nas telinhas desde o final de "Avenida Brasil", de João Emmanuel Carneiro - que acabou no primeiro semestre de 2013, ou seja, há longínquos dois anos. Bem escrita, bem dirigida, visualmente atraente e com um elenco acima de qualquer crítica (salvo exceções), "Babilônia" é um novelão que merece conquistar sua audiência - mesmo que, para isso, tenha que, infelizmente, alterar algumas de suas histórias originais.


O que provavelmente mais incomoda aos telespectadores que abandonaram a Globo no horário nobre - há que se levar em consideração também a concorrência da Internet, transmissões em streaming, canais a cabo, etc - é o fato de que suas duas protagonistas - a Beatriz de Glória Pires e a Inês de Adriana Esteves (ambas excelentes) - não são exemplos a serem seguidos. Beatriz é uma devoradora de homens, trai o marido sem pena nem dó, desvia dinheiro de sua empreiteira e só agora parece estar no caminho de mudar sua rotina de manda-chuva, ao se envolver com Diogo (Thiago Martins), o jovem atleta patrocinado pela empresa da família. E Inês recentemente colocou as cartas na mesa para o telespectador, anunciando uma vingança contra a ex-melhor amiga de adolescência - uma vingança, aliás, semelhante àquela que Laura (Cláudia Abreu) tramou contra Maria Clara Diniz (Malu Mader) em "Celebridade", que Braga escreveu em 2003. A batalha entre as duas é a base da novela - olho por olho, dente por dente - e quem foge desses desvios de caráter é a terceira personagem central, Regina (Camila Pitanga), que batalha para criar a filha pequena e sobreviver de forma honesta. É surpreendente e paradoxal que o público rejeite Inês e Beatriz porque elas são "do mal" e pouco se importe com Regina porque "ela é chata". Povinho difícil de agradar!

E nem vou entrar no mérito das polêmicas levantadas nesse primeiro mês - aliás, primeiro capítulo, que mostrou, para o choque das senhoras de Santana, um beijo na boca entre duas mulheres. Se tivesse sido um beijo entre dois símbolos sexuais de peitos inchados de silicone, provavelmente a reação seria entusiástica. Mas não foi. Quem se beijou foram duas mulheres de 80 anos, que vivem uma relação estável há 35 e se amam - e são vividas por dois monumentos das artes cênicas nacionais, Fernanda Montenegro e Nathalia Thimberg. O resultado? Gritaria geral por parte dos conservadores - inclusive políticos cujos nomes estão envolvidos em escândalos de corrupção. E políticos corruptos também não faltam na novela, representados pelo demagogo Aderbal Pimenta (Marcos Palmeira em sua melhor atuação em muito tempo), que nas horas vagas invoca o nome de Deus para justificar seus preconceitos - assim como sua mãe, vivida por uma excelente Arlete Salles, que não hesita em disparar barbaridades contra gays, ateus e quem mais cruzar seu caminho sem compactuar com suas ideias retrógradas. Não é à toa a baixa audiência! Quem é que gosta de se ver ridicularizado em horário nobre?

"Babilônia", reitero, é uma grande novela. Tem personagens bem delineados, tramas bem amarradas, ideias muito inteligentes, uma trilha sonora que é um respiro frente aos funks, sertanejos e pagodes enfiados garganta adentro pelos programas de auditório e um elenco fascinante recitando diálogos que soam como música. É um presente ver, diariamente, nomes como Fernanda Montenegro, Nathalia Thimberg, Glória Pires, Adriana Esteves, Cássio Gabus Mendes, Arlete Salles, Bruno Gagliasso e Débora Duarte - entre vários outros atores e atrizes de experiências variadas. É de graça. Massageia o cérebro - dentro dos limites do que pode fazer uma simples telenovela - e entretém. Como assim tem gente que ainda preferia estar assistindo àquela bobagem que era transmitida antes???

domingo, 25 de janeiro de 2015

"IMPÉRIO": DE PROMESSA À DECEPÇÃO

Em julho o público noveleiro entusiasmou-se: depois de um longo inverno em que teve que aturar as viagens megalomaníacas de "Salve Jorge", o texto paupérrimo e as cenas de um programa ruim de humor de "Amor à vida" e a pasmaceira fora da realidade de "Em família", parecia que enfim uma novela de verdade estava prestes a começar. Os primeiros capítulos de "Império" prometiam: um ritmo ágil, bom texto, atores a serviço de bons personagens e uma passagem de tempo que não tratou o espectador como burro encheram o peito da audiência de esperança. Então, apesar de algumas tramas paralelas que pareciam interessantes, a história começou a patinar. Patinou, patinou e chegou a seu sexto mês de exibição cansada. Agora que seu autor Aguinaldo Silva resolveu realmente dedicar seu tempo a contar a história do Comendador José Alfredo - a espinha dorsal da novela, afinal de contas - talvez seja tarde demais para recuperar a paciência do público. Repleto de personagens maniqueístas, preconceito e histórias requentadas das novelas anteriores do mesmo autor, "Império" também não mostrou a que veio. É mais uma novela que é muito melhor na mente egocêntrica de seu criador do que na telinha da TV.

A novela, como afirmado anteriormente, começou bem. Aguinaldo Silva, apesar de tudo, é um autor experiente e sabe como expor suas tramas e construir seus personagens de modo a interligá-los de maneira inteligente, além de ser um exímio construtor de diálogos - ninguém que é co-autor de "Roque Santeiro" e "Vale tudo" e autor principal de "Tieta" pode ser acusado de não saber escrever um bom texto teledramatúrgico. O problema é que, com o passar do tempo, os (muitos) defeitos da novela acabaram por chamar mais a atenção do que suas (poucas mas sólidas) qualidades. Então o show de Alexandre Nero no papel principal foi eclipsado pelo overacting insuportável de Paulo Betti como Theo Pereira - personagem que é uma espécie de alter-ego do autor mas cujo histrionismo afetado às raias do exagero não apenas lembra o tenebroso Crô de Marcelo Serrado em "Fina estampa" (02), do mesmo Aguinaldo, como também presta um desserviço inominável às conquistas da comunidade gay que a própria Globo havia conquistado com o beijo entre Mateus Solano e Thiago Fragoso em "Amor à vida". A subtrama chatíssima do pintor Salvador (Paulo Vilhena imitando Brad Pitt em "Os 12 macacos") diminiu o tempo em cena dos sensacionais Magnólia e Severo (Zezé Polessa e Tato Gabus). Os personagens gays de repente não mais o eram (a Xana de Ailton Graça esqueceu que era apaixonado por Elivaldo - interpretado pela revelação Rafael Losso - e o Leo de Klebber Toledo começou a engraçar-se por Amanda, mais uma atuação sofrível de Adriana Biroli) e o homofóbico Enrico (Joaquim Lopes só não sendo pior em cena do que seu comparsa em destruir o restaurante que um dia foi seu) tornou-se também mau-caráter - assim como outros quase figurantes que, de uma hora pra outra, foram para o lado negro da força sem explicações plausíveis.


Aliás, explicações plausíveis são artigo raro em "Império". A sensacional Drica Moraes saiu do elenco por motivos de saúde e, para surpresa geral, sua personagem não morreu: fez uma cirurgia plástica muito mal explicada e ressurgiu na pele de Marjorie Estiano - alguns espectadores acharam a ideia criativa, outros bem mais numerosos abandonaram a trama de vez depois desse absurdo. Maria Clara, a personagem de Andréia Horta, repentinamente se voltou contra o pai, se unindo aos irmãos na disputa cega pelo poder e perdendo a consistência da personagem - a única que mantinha uma relação de amor paternal na trama. O pintor Salvador iniciou um romance inesperado com Helena (Júlia Fajardo, filha de José Mayer na vida real) mais por necessidade do autor em inventar mais uma história do que por coerência interna. E nem é preciso apontar a entrada do péssimo Carmo Dalla Vecchia no elenco como outro ponto negativo: basta relembrar todos os outros personagens vividos pelo ator para perceber o limite de seu talento. Limite, inclusive, é o que parece ter a imaginação de Aguinaldo Silva, que mais uma vez utiliza seu protagonista como tema de samba-enredo de uma escola de samba fictícia - como fez em "Senhora do destino".

Os erros de "Império" são inúmeros e poderiam render posts e posts. Não é necessário reiterar que Paulo Betti (na pior atuação de sua carreira), Leticia Birkheuer, Romulo Neto, Nanda Costa, Adriana Biroli, Carmo Dalla Vechhia, Joaquim Lopes e Marina Ruy Barbosa estão sofríveis, já que basta assistir a um capítulo para notar tal fato. Mas seria injustiça falar da novela sem louvar aqueles que tentam dar dignidade a ela, com trabalhos acima da média. Além dos já citados Alexandre Nero, Zezé Polessa e Tato Gabus, é preciso reconhecer que Suzy Rego está excelente em sua discrição, Marjorie Estiano está fazendo o possível para segurar um papel de coerência nula, Leandra Leal está muito bem como a heroína Cristina - apesar de seu personagem ter-se esvaziado, também - e a ótima Dani Barros rouba a cena como a sem-noção Lorraine. São eles que ainda fazem com que valha a pena perder alguns minutos diante da tv. Até que os coadjuvantes - numerosos e mal interpretados - estraguem tudo novamente. Que venha "Babilônia", do mestre Gilberto Braga.

terça-feira, 8 de abril de 2014

O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM "EM FAMÍLIA"?

Depois de meses a fio sendo obrigado a aturar os absurdos de "Amor à vida", o fiel público noveleiro tinha motivos de sobra para comemorar a estreia de "Em família", no dia 03 de fevereiro. Primeiro, o currículo do autor Manoel Carlos deixava antever uma qualidade rara no texto e personagens bem construídos. Depois, saíam de cenas os vilões cartunescos e inverossímeis de Walcyr Carrasco para dar lugar a gente muito mais perto da realidade - ainda que não seja muita gente que frequente os ambientes sofisticados do Leblon retratados na novela, é muito mais fácil acreditar em uma mulher obcecada pela maternidade do que em uma secretária vingativa que resolve cegar o marido mais velho, afinal de contas. Por que, então, mais de dois meses depois de sua estreia, a história da 9ª Helena criada pelo autor carioca ainda não empolgou sua audiência?

Bom, qualquer pessoa - QUALQUER pessoa, até aquela dotada da maior boa-vontade do mundo - há de convir que é um desafio à lógica entender a escalação de elenco na família da protagonista. Natália do Valle ser mãe de Julia Lemmertz já é forçar a barra em limites estratosféricos, mas a coisa se estende ad infinitum: Ana Beatriz Nogueira é mãe de Gabriel Braga Nunes, Vanessa Gerbelli é a tia mais velha de Júlia, Giovanna Antonelli é irmã mais nova do Thiago Mendonça... enfim, tem pra todos os gostos. Aparentemente, o único integrante do elenco que tem a idade real do personagem é Paulo José - felizmente lembrado pela Globo como o grande ator que é. E Antonelli, é bom que se diga, faz pela milésima vez a mesma personagem que vem fazendo desde a Capitu, de "Laços de família". Ah, não é? Ok, ela não é garota de programa, nem vilã loira, nem delegada, nem vive no Marrocos, mas o tom de voz e a interpretação "naturalista" - também conhecida como "seja você mesma que tá tudo bem" - mostram que, apesar dos fãs, ela não é uma atriz das mais capazes, além de ser dona de uma personagem pra lá de chata - e Maneco vai penar em fazer o público torcer por um casal lésbico onde uma das partes abandona o marido doente.

E se o texto de "Em família" é um bálsamo para os ouvidos daqueles que passaram quase um ano escutando os diálogos de teatro escolar de "Amor à vida", a lentidão com que a trama se desenvolve já está fazendo muita gente abandonar o barco. Depois de se ver obrigada a apressar a edição dos capítulos iniciais - que mostrava como começou a obsessão entre Laerte e Helena (porque é complicado acreditar que é amor algo tão doentio) - porque a audiência estava pedindo mais ação, era de se imaginar que a Globo solicitaria ao veterano autor um pouco mais de pressa. Não é o que está acontecendo. Se o público ficar uma semana inteira sem assistir à novela, vai voltar a prestigiá-la praticamente no mesmo ponto onde parou. O triângulo amoroso Helena-Laerte-Luiza (Bruna Marquezine dando conta do recado sem muito esforço) ainda não saiu do lugar, ilustrado pelo irritante som da flauta do protagonista e atrapalhado por uma das poucas personagens de atitude na novela, a Shirley de Vivianne Pasmanter - que, apesar disso, faz pela terceira vez uma antagonista criada por Manoel Carlos.


Somada a esse ritmo de cágado - que nem mesmo a poesia dos diálogos consegue disfarçar, principalmente com a direção quase contemplativa de Jayme Monjardim - existe a trilha sonora. Não deixa de ser ótimo ouvir bossa nova desde a abertura até o encerramento, mas a impressão que se tem é que desde "Laços de família" as músicas que acompanham as Helenas do autor são sempre as mesmas. Ana Carolina cantando "Eu sei que vou te amar" nem dá para comparar com Daniel uivando "Maravida", mas mesmo assim é complicado se empolgar com Sandy e Manu Gavassi - cantorazinha de quinta categoria e atriz ainda pior escalada como a namorada do filho de Laerte, vivido por Ronny Kriwat.

Mas nem tudo é ruim na novela das nove. Só o fato de não ter um núcleo cômico sem graça e prescindir de gente gritando bordões de "Zorra total" já é um alívio para a inteligência do espectador, mas outras qualidades presentes podem reverter o quadro de audiência insatisfatória. Vanessa Gerbelli e Angela Vieira tem em mãos personagens ricas que tem tudo para monopolizar a atenção. O núcleo do asilo para idosos pode fazer graça sem apelar para o humor rasteiro, além de contar com a ótima Betty Goffman como a vilã Miss Lauren. Tramas interessantes - como a de André (Bruno Gissoni) que renega a mãe adotiva negra - podem assumir maior importância com o desenrolar da história e até mesmo a história central, quando realmente começar, pode atear fogo ao horário nobre - apesar das rusgas de bastidores que vem atrapalhando ainda mais seu caminho para o sucesso. Eu ainda acredito em "Em família".

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

"JÓIA RARA" É UMA PEDRA PRECIOSA NA PROGRAMAÇÃO

Em uma época em que a tentativa de inovar resultou em um produto intragável - a chata e insossa "Além do horizonte" - e que o horário nobre é preenchido por uma sucessão de diálogos risíveis (no mau sentido) e personagens mal delineados - com Walcyr Carrasco emulando de forma vergonhosa, em "Amor à vida" as tramas mexicanas que não funcionam fora do SBT - não deixa de ser um oásis assistir-se à novela das 18h, a encantadora "Jóia rara". Escrita pela dupla Thelma Guedes e Duca Rachid - que conquistaram o público com a criativa "Cordel encantado", de 2011 - a trama enfrenta problemas de audiência (em parte por causa do horário de verão em parte porque muitas vezes o público não compra a ideia, como aconteceu com a encantadora "Lado a lado", no ano passado), mas é infinitamente mais competente do que a novela das 21h - em todos os quesitos.

A bem da verdade, tudo funciona em "Jóia rara", desde a trama central até as paralelas, que caminham fluentemente não apenas para enrolar e passar o tempo - como o faz Carrasco em sua novela - mas porque tem vida própria e estão organicamente ligadas aos protagonistas. Até mesmo os núcleos cômicos, que normalmente soam falsos quando não existe inteligência para mantê-los, são engraçados e funcionais - e muito desse sucesso vem do equilíbrio entre texto, elenco talentoso e direção firme. Aliás, a direção pode ser considerada um dos pontos mais altos da novela de Guedes e Rachid: assim como o fez em "Avenida Brasil", Amora Mautner conduz seus atores no tênue limite entre o naturalismo da novela de João Emanuel Carneiro e o classicismo que o texto romântico de "Jóia rara" propõe, além de ser a principal responsável pelo extremo bom gosto visual da novela.


A fotografia de "Jóia rara" é espetacular. Desde os primeiros capítulos, no Nepal, até os apresentados recentemente, passados no Rio de Janeiro pós II Guerra, o visual criado pela produção é deslumbrante, fugindo do tradicional tom neutro que, logicamente, não combinaria com a mescla de romantismo e misticismo que circunda a história central. O cuidado com os detalhes enche os olhos da audiência: os figurinos e os cenários seguem o padrão de qualidade global, mas sente-se nitidamente que a obsessão com a reconstituição de época correta não afeta em nada o cuidado com a emoção - que transborda sem parecer piegas no texto excelente das autoras, que não abdicam de nenhuma das regras básicas do folhetim para contar uma história humana, simples e recheada de personagens críveis interpretados por um elenco de ouro.

Como casal central, Bruno Gagliasso e Bianca Bin funcionam às mil maravilhas. Bin, inclusive, deixa pra trás a péssima impressão de sua atuação como a vilã Carolina do remake desastroso de "Guerra dos sexos", fazendo de sua Amelinha uma mulher forte e determinada como deve ser uma boa mocinha de folhetim. Os vilões, Carmo Dalla Vecchia e José de Abreu não deixam a desejar - se o segundo não precisa provar mais nada a ninguém (especialmente depois de seu genial Nilo, de "Avenida Brasil"), o primeiro dá suas escorregadas nas caras e bocas, mas de certa forma elas cabem na sua construção do recalcado Manfred, que encontra na fantástica Ana Lúcia Torre uma comparsa à altura. Os demais pares românticos também merecem destaque: Mariana Ximenes brilha com sua Aurora Lincoln apaixonada pelo veterano de guerra paraplégico Davi (Leandro Lima), Nathalia Dill encontrou o tom certo de sua Silvia, vilã apaixonada pelo filho de seu desafeto (Rafael Cardoso) e até mesmo o romance proibido entre o monge Sonan (Caio Blat) e a desinibida Matilde (Fabíula Nascimento, ótima) convence sem precisar nem mesmo de um beijo. Ao redor de todas essas histórias de amor - essenciais a uma boa novela - circulam personagens trágicos (como Gaia, a sobrevivente do Holocausto vivida por Ana Cecília Costa que retorna ao Brasil e encontra o marido casado com outra mulher) e engraçados (como Joel, o empresário de Aurora, vivido com graça por Marcelo Médici). Os destaques são inúmeros, mas é impossível não dar a devida atenção à pequena Mel Maia.

Revelada em "Avenida Brasil", Mel é um destaque à parte em "Jóia rara": no papel crucial de Pérola, a menina que é a reencarnação de um monge budista dá um show de talento e naturalidade, fazendo de sua personagem algo encantador. Por causa dela - e da atmosfera bem criada por texto e direção - o tom místico da história soa verdadeiro: em nenhum momento se duvida dos poderes de Pérola de curar as pessoas que ama ou ter premonições - e mesmo quem não se deixa seduzir por esse tom religioso tem muito mais a admirar, inclusive a excepcional trilha sonora, que resgata grandes nomes da MPB em gravações originais. Em quantos programas de hoje você consegue ouvir Elis, Caetano, Gil, Bethânia, Milton Nascimento, Chico Buarque e Zizi Possi?

"Jóia rara" é uma novela. Simples assim. Tem o bem e o mal definidos, núcleo cômico funcional, histórias de amor e um pano de fundo histórico que não invade o que a dramaturgia tem de bom. Maniqueísta? Talvez, mas nada paga a chance de se torcer claramente por um final feliz. Aprenda, Walcyr Carrasco.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

OS INÚMEROS EQUÍVOCOS DE "AMOR À VIDA"


Walcyr Carrasco tem um currículo invejável de sucessos no horário das 18h da Globo. Levam sua assinatura a deliciosa "O cravo e a rosa" - atualmente em sua re-reprise no "Vale a pena ver de novo", o que comprova sua popularidade -, a simpática "Chocolate com pimenta" e a bela "Alma gêmea". Para o horário das 19h ele escreveu "Sete pecados", "Caras e bocas" e "Morde e assopra" - nenhuma digna de muito louvor. Antes de chegar ao horário mais almejado pelos novelistas brasileiros, ele ainda adaptou a clássica "Gabriela", que dividiu opiniões. Agora, ele está no ar, comandando a novela das nove, a menina dos olhos da emissora carioca. Desde que estreou, em maio - com um primeiro capítulo primoroso que prometia um banho em sua sofrível predecessora "Salve Jorge" - "Amor à vida" foi caindo pouco a pouco, misturando situações inverossímeis, personagens insuportáveis, tramas desnecessárias e alguns elementos que não caem bem nem mesmo em "Zorra Total". Com uma audiência generosa - que chegou a bater nos 49 pontos na cena em que seu vilão Félix (Mateus Solano) é desmascarado - a novela de Walcyr, porém, não escapa de ser uma das mais vergonhosas tramas do horário - e isso que ele tem que disputar o título com as historinhas tenebrosas de Aguinaldo Silva...


Entre mortos e feridos quase ninguém se salva. Então que tal fazer uma pequena lista das coisas que estão MUITO erradas na novela que tem feito o Brasil questionar o seu hábito de manter-se no sofá depois do Jornal Nacional?

1. PROTAGONISTAS SEM CARISMA - Paolla Oliveira enfrentou uma enorme resistência do público quando foi a mocinha de "Insensato coração", em 2011, substituindo Ana Paula Arósio, que abandonou a novela antes da estreia. Quem achava que era porque a personagem era fraca deve estar mudando de ideia agora, quando novamente a atriz não diz a que veio, nem mesmo em cenas onde deveria mostrar mais do que uma expressão apática. Junte-a com Malvino Salvador, um dos piores atores a surgir nos últimos anos e pronto: um casal central que não desperta mais do que sono.

2. PERSONAGENS SEM CONSISTÊNCIA: O Ninho de Juliano Cazarré já mudou de personalidade umas três vezes desde o começo da novela. A Amarylis de Danielle Winnits de mulher apaixonada transformou-se em bruxa de contos de fadas, sendo má apenas por ser má. O Herbert de José Wilker - além de ser interpretado por um ator extremamente superapreciado - gostava de Gina e de uma hora pra outra voltou a apaixonar-se por Ordália, além de estar dando corda para Edith - que também não sabe se gosta ou odeia o ex-marido Félix. A Aline de Vanessa Giácomo já começou a odiar o filho bebê - coisa que era previsível mas nunca havia sido demonstrada previamente. Pilar amava desesperadamente o marido e agora está assanhada entre o médico bonitão Jacques e o motorista marginal Maciel. E esses são apenas alguns exemplos de como os personagens da novela não tem uma linha coerente de existência.


3. TRAMAS EM UM ETERNO LOOPING: Lógico que deve ser dificílimo criar histórias por meses e meses a fio para preencher quase duas horas diárias de material, mas nada justifica que uma emissora como a Globo permita que algumas das tramas de "Amor à vida" sejam tão, mas tão insuportáveis e estagnadas. Um exemplo perfeito? Qual a moral do casal Michel (Caio Castro) e Patrícia (Maria Casedavall)? A princípio eles não queriam compromisso. Depois, não queriam transar em motel porque não gostavam. E agora, do nada, são clientes habituais de um motel (o único da cidade de São Paulo, pelo visto) que tem apenas uma garrafa de champagne - e que também é frequentado por seus cônjuges Guto (Márcio Garcia) e Sílvia (Carol Castro). Aliás, Guto e Sílvia se envolveram para vingar-se de suas caras-metades (o motivo é uma incógnita, já que ele traiu a mulher na lua-de-mel e ela teve o marido a seu lado durante um câncer de mama que, assim como surgiu, foi embora). Se Carrasco quer que o público fique ansioso pelo encontro dos quatro no motel ele já conseguiu: nem tanto para ver a cena, mas para acabar com essa palhaçada de uma vez por todas.

4. DESFILE DE DOENÇAS: Parece a música "O pulso", dos Titãs: toda e qualquer enfermidade já diagnosticada já foi debatida na novela - com um nível de superficialidade de dar pena. Leucemia, lúpus, câncer de mama, alcoolismo, TOC, AIDS, autismo e outras mais não são tratadas com respeito ou informação e sim como forma de matar o tempo. Seria bom discutí-las, mas não dessa maneira.


5. ATORES RUINS: Tudo bem que Mateus Solano anda dando banhos e mais banhos de atuação como Félix e Antonio Fagundes faz o que pode com seu absurdamente parvo César, mas o elenco de "Amor à vida" tem alguns atores que dão vergonha só de assistir. Além de Paolla Oliveira e Malvino Salvador - que são humilhados diariamente até mesmo pela menina Klara Castanho - podemos citar Caio Castro, Fernanda Machado, Sophia Abrahão (que entrou para substituir a igualmente péssima Marina Ruy Barbosa em uma trama que poderia muito bem ser limada), Lucas Malvacini, Anderson Di Rizzi, Carolina Kasting, José Wilker (sim, ele é péssimo, reconheçamos!), Marcello Antony, Júlio Rocha... É gente ruim demais para uma única novela. E deixam de lado a excelente Leona Cavalli, vai entender.

6. TEXTO FRACO: O que se esperar de uma novela com diálogos como: "Vou levar meu filho embora." "Não vai, não." "Vou, sim." "Não vai, não."... Que saudade de Gilberto Braga!!!

7. HUMOR PASTELÃO: Carrasco precisa entender que "Amor à vida" não é "Zorra total", apesar de Fabiana Karla com sua insuportável Perséfone. Sendo assim, que tal parar de tentar fazer humor com o batidíssimo manual de boas maneiras com Valdirene (que começou a novela com um frescor que está se esvaindo graças às ideias sem graça do autor) ou com o funk inenarrável de Carlito? E que tal Márcia parar de gritar em TODAS as suas cenas? E que tal Félix deixar para destilar seu veneno em ocasiões em que ele caiba? Não é possível que alguém na pior vá continuar fazendo piadinhas...

8. INGENUIDADE EXCESSIVA: Tudo bem que em uma novela é preciso que os vilões passem a perna nos mocinhos, até mesmo para que haja a bem-vinda catarse que é o desmascaramento (haja visto o recorde de audiência com Felix mostrando sua verdadeira face). Mas "Amor à vida" abusa da boa-vontade do público. César é um babão cego e trouxa. Paloma acredita até em cartomante. Eron (Marcello Antony) crê em tudo que Amarylis diz, mesmo com todas as provas diante do nariz. O público nem torce por eles, de tão boca-abertas que são. E sem que o público tenha para quem torcer, o resultado é péssimo.

9. PROPAGANDAS MAL-INSERIDAS: Alguém realmente acha natural a maneira com que o merchandising é inserido na novela? Seja de programas da própria Globo - elogiados constrangidamente pelos personagens -, de produtos ou instituições - lâminas de barbear em close ou o Itaú (argh) em destaque - ou até mesmo de livros - inclusive Paulo Coelho, salve-se quem puder - tudo soa falso, artificial e mais engessado do que teatro de escola. É de rir para não chorar.

A lista de erros de "Amor à vida" é imensa e poderia continuar indefinidamente. Mas essa pequena parcela de equívocos citada aqui já dá uma mostra de que Walcyr Carrasco terá que reciclar-se urgentemente para sua próxima incursão ao horário. Ou então teremos meses de férias da telinha.